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sábado, setembro 16, 2006

Música de Cabo Verde em Orlano Pantera

Orlando Pantera: Foi Um Cometa

Morreu aos 33 anos, mas em Cabo Verde já era um mito.
Há quem fale em Orlando Pantera como a maior descoberta musical da década.
Agora em Portugal registos precários das suas músicas passam de mão em mão por aqueles que se descobriram fãs.Há projectos de edições póstumas. Joana Gorjão Henriques.
Quando se fala com quem o conheceu várias ideias se repetem.
A de que nele as pulsações nasciam da música e batiam ao ritmo de uma criatividade generosa. A de que a naturalidade com que musicava a vida era uma dávida (talvez ele, católico, pensasse que de Deus) a partilhar com os outros.
Assim ficou espalhada a música de Orlando Pantera.
Não gravou nenhum álbum - morreu antes disso - e neste momento a única maneira de ouvir uma obra que todos dizem ser de grande qualidade é copiando-a a partir do material disperso que deixou.
Considerado percursor de um novo estilo na música cabo-verdiana, foi letrista (poeta, diriam alguns), compositor, multinstrumentista e só nos últimos anos de vida é que cantou em público. Musicava os homens e mulheres do campo, o amor e suas desilusões - "sou cabo-verdiano", lembrava. Desenterrou géneros tradicionais da ilha de Santiago esquecidos pelas gerações pós-independência e, sem os reproduzir mas respeitando-os, criou o seu estilo, admirado por consagrados e jovens.
Não gravou nenhum disco, mas o espanto multiplica-se: génio de sensibilidade extrema e força criativa intensa; inovador e autêntico; criador de um mundo poético belíssimo; excelente compositor de canções. Um artista que iria ser uma "revelação", impulsionador de uma música aberta a influências com potencialidades para correr o mundo.
Quando, há algumas semanas, foi exibido no B. Leza, em Lisboa, o documentário "Mais Alma", de Catarina Alves Costa - sobre a situação dos artistas cabo-verdianos, e onde Pantera tem forte presença ao longo de uma hora - o espaço estava a transbordar de gente. Foi exibido segunda vez e voltou a esgotar.
Claro que a euforia - a "mitificação"? - vem do f
løacto de Pantera ter morrido jovem, vítima de pancreatite aguda, a 1 de Março de 2001, no dia em que ia começar a gravar em França o primeiro álbum, "Lapidu na Bô"/ "Colado a Ti". O determinismo fatalista fez ainda notar: desapareceu com a idade de Cristo, 33 anos.
"Tenho a certeza que não vou ver mais nenhum génio como ele. Só há dois ou três num século. Foi um cometa: passou para dar luz. Comparo-o a Jim Morisson. Acho que vai inspirar muitos jovens. A sua maneira de ser, de estar, de viver, a sua gentileza... Era quase patético, o talento dele era tão imenso... Cabo Verde não vai ter um artista assim nos próximos 50 anos. Como Pelé, no futebol, ainda andámos à procura de um...", diz, emocionado, Elísio Lopes, da editora francesa Morabeza Records, onde Pantera iria gravar duas músicas de "Lapidu na Bô", o disco em que apresentaria ao mundo o projecto "Racodja"/ "Recolha", resultado de uma pesquisa dos géneros tradicionais desenvolvida ao longo de mais de 10 anos na ilha de Santiago.
Património. Não há disco, mas circulam registos vários pelos que, de repente, se tornaram fãs. Só que, em breve, Pantera poderá ser ouvido sem ser por portas travessas. A Morabeza Records vai editar um álbum póstumo - sem data marcada; quer fazê-lo "sem pressa, para produzir um disco de qualidade", tal como o tinha pensado o músico -, recolhendo as suas músicas, sobretudo aquelas em que Pantera era protagonista.
Clara Andermatt, com os co-produtores Teatro Nacional São João, Ministério da Cultura e Montepio Geral editará a banda sonora de "Dan Dau", espectáculo da coreógrafa com quem Pantera trabalhou de 1998 a 1999, altura em que viveu em Portugal. Será uma edição limitada de dois mil discos (o objectivo é acompanhar a digressão da coreografia em Setembro), susceptível de aumentar se o mercado o exigir. A coreógrafa dedica o CD à memória de Pantera, que participa em cinco das oito músicas. Entrará no circuito comercial em Novembro.
Mas onde é que está este património musical? Ao que tudo indica, a maioria do material gravado em estúdio está nas mãos do compositor João Lucas, um dos sócios do estúdio lisboeta Luminária, onde Pantera chegou a agendar, para Fevereiro, a gravação de algumas músicas do primeiro disco (nem a mulher de Pantera, Carla Garcia, nem Lucas sabem porque é que desistiu da ideia).
Foi no Luminária que, em 1998, Pantera fez experiências a pensar nesse disco que não finalizaria: cinco músicas a solo, entre as quais "Batuko", incluída no CD de "História da Dúvida" (outro espectáculo de Andermatt), para o qual compôs ainda, com João Lucas, "I am a professional", integrada também em "Dan Dau". Aí gravou ainda cinco músicas para "Pêtu", espectáculo do Raíz de Pólon (grupo ao qual esteve ligado desde 1997).
Existem também compilações com músicas de Pantera: "Verão 2000" e "Filhos do Funaná"; sete composições em discos de outros intérpretes, Mário Rui, Djudja, Grace Évora, Pentagono, Filipe e Tubarões.
Para além disso, Carla Garcia, com quem Pantera viveu durante oito anos e de quem teve uma filha (Darlene, com seis anos), já reuniu cerca de 34 temas dispersos de um artista "que dava as músicas a toda a gente". Garante: "há muitos mais". Por agora desconhece a qualidade do material que tem em mãos, e a sua extensão, até porque em Cabo Verde não existe uma instituição que proteja os direitos de autor - o músico registou as suas obras em França.
Juntamente com um advogado, Carla está a registar o património que Pantera deixou por registar: as músicas de que apenas existem as letras que Pantera ia anotando em papéis; as que se encontram nas mãos de músicos com quem gravou e tocou; as que gravou em ensaios e as que nunca foram escritas, porque ele e os outros as sabiam de cor; as músicas infantis que compôs com as crianças a quem ensinava música...
"Existe um aproveitamento da obra do Pantera porque ele confiava em toda a gente, era muito espontâneo, dizia às pessoas que podiam gravar as músicas dele e, que eu saiba, nem recebia contrapartidas financeiras. Nunca o ouvi falar em dinheiro", conta Raul Ribeiro, dos Arkorá, grupo com quem Pantera ia gravar em Portugal, no Praça das Flores, algumas músicas do seu disco.
"O disco iria criar um espaço próprio. Daqui a cinco anos teríamos os frutos disso", é a convicção de Ildo Lobo (ex-Tubarões). Também a cantora Celina Pereira, a residir em Portugal há 31 anos, vê em Pantera uma revelação. Que a morte está a transformar em mito. "Quando conheci Pantera tinha o violão nas mãos e dedilhou uma coisa que parecia o 'Summertime'. Comecei a cantar... Foi logo uma empatia que se criou ali...Ele tinha uma enorme preocupação com uma lacuna que existia, com a relação dos cabo-verdianos da diáspora com a música tradicional, de eles só ouvirem o zouk [género comercial, de dança]".
O que foi e o que poderia ter sido. Mesmo com o material disperso, mesmo que a fraca qualidade técnica justifique que se retire a sua voz de algumas gravações para a colocar por cima de temas recriados, há vontade de que a obra seja editada. A ideia, explica Carla, é editar o disco que Pantera tinha previsto e depois, se houver material suficiente, um outro. Elísio Lopes, da Morabeza Records, irá a Itália e virá a Portugal, talvez ainda a outros países por onde Pantera passou, reunir-se com aqueles que têm composições do músico.
Porquê tanto interesse em lançar um disco de alguém que nunca chegou a ter carreira internacional e que só pouco tempo antes de morrer começou a cantar em público, depois de Manu Preto, do Raíz de Pólon, ter insistido para que ele subisse ao palco e mostrar que, ao contrário do que dizia, sabia cantar?
João Lucas responde: "uma das coisas mais chocantes" para quem conheceu Pantera foi a sua morte ter acontecido "num momento em que ele iria ser uma revelação. É fácil imaginá-lo a disputar o mercado da 'world music'... A música, inspirada em folclore e nas tradições, tinha um grande trunfo: a vontade de encontrar uma originalidade sem prejuízo da autenticidade".
Quando tocava a solo - voz e guitarra - revelava "qualquer coisa de ancestral, e ao mesmo tempo um virtuosismo e uma grande autencidade", descreve Lucas. Quem conheceu Pantera, acrescenta ainda, "fala dele com o respeito por um artista cosmopolita", tão grande como os grandes - "como o senegalês Youssou N'Dour" - que têm discos no mercado.
Vladimir Monteiro, jornalista e autor do livro "La Musique de Cabo Verde" (editado em França pela Chandaigne), é inequívoco ao enquadrar Orlando Pantera no contexto cabo-verdiano: "Um dos melhores compositores e intérpretes da última década".
"Colocá-lo-ia na categoria dos novos estilos, ao lado de pessoas como Vasco Martins ou Mário Lúcio (dos Simenteira). Em termos de texto tinha tudo para vir a ser um novo Manuel d'Novas [músico intérprete de coladeras], porque são textos ricos, bem pensados onde há uma certa filosofia e preocupação em introduzir a palavra certa, no momento certo", define.
Teresa Cascudo, crítica de música clássica do PÚBLICO, ressalva a dificuldade em falar de alguém que nunca gravou um disco - "aí é que está o drama: o que ele foi e o que podia ter sido" - e de uma música que conheceu sobretudo "pelos olhos" de quem a faz. Mas, ainda assim, destaca um repertório que investe na identidade e segue uma via "que tem a ver com a atitude que existe na música erudita ou no jazz, onde há lugar para a pesquisa, e em que o objectivo é a fusão, aproveitando diversas tradições, incluindo a própria."
Pantera tinha "o sentido de dramaturgia, a capacidade de criar uma história do princípio ao fim e um mundo poético muito belo", qualidades que o tornariam "num maravilhoso criador de canções". Recorda a "vitalidade intensa e o optimismo militante" de alguém que "fazia música por uma questão de vida ou morte: como respirar".
Para Elísio Lopes, Pantera corresponde a uma evolução da música cabo-verdiana: "Tem uma abertura extraordinária ao mundo e ao mesmo tempo aproxima-se da raiz de Cabo Verde e do continente africano. A dor da realidade da vida, tão difícil para seres humanos sensíveis como ele, está presente na sua música e na sua interpretação."
Há ainda, para Clara Andermatt, uma componente cultural decisiva: a música de Pantera tem mais "alma cabo-verdiana" do que influências internacionais. "A musicalidade é a da alma dos cabo-verdianos: uma mistura de aceitação das condições em que vivem e uma paz nessa tristeza."
Cantava com o corpo todo. Quem viu Pantera em concertos descreve a metamorfose, nos palcos, de um homem tímido. Ninguém diria que desde miúdo ele pedia a outros para cantar as suas músicas, "porque de cada vez que cantava ficava rouco", achava que não tinha voz.
Segundo conta a mãe, tudo começou com Mário Rui, o amigo cantor, numa altura em que nem ela nem o pai tinham dado conta que o filho se tornaria músico - mas ele já rondava o avô materno para lhe ensinar a tocar gaita e acordeão, e contava à mãe que se deitava a pensar em músicas que ia escrever a meio da noite. Mário Rui tinha a viola em que Pantera tocou as primeiras notas e foi com ele que experimentou o cavaquinho, a flauta, depois de fazer música com as latas que punha entre as pernas, diz a mãe.
Na altura em que começou a cantar em público, a maioria dos espectadores talvez ainda não associasse o seu nome ao do compositor que havia criado uma canção para Grace Évora e três temas para o álbum dos Tubarões, "Porton di Nôs Ilha". Foi com estes que foi galardoado com o Prémio Compositor do Ano, em 1993, e foram essas músicas que o tornaram estrela, segundo Vladimir Monteiro. Apesar de ainda não terem "traços do que viria fazer" - dois funanás e uma coladera -, introduzem "uma lufada de ar fresco no disco dos Tuburões, dando mais ênfase ao trabalho" do grupo.
"Nasceu para o palco, para a música. Mas quando parava e tinha que falar ao público, voltava ser o homem tímido. Quando estava a tocar com outros não procurava colocar-se em evidência", descreve Vladimir Monteiro.
Talvez também por isso nem todos os que assistiram a "História da Dúvida", em 1998, no CCB, tenham reparado que entre os músicos no palco lá estava Pantera. Talvez isso explique ainda a sensação com que Andermatt ficou da sua presença: "uma cara muito aberta, que tinha a ver com a entrega às pessoas, à vida; um corpo fechado, com os ombros virados para dentro" pela "timidez latente" de alguém "extremamente inseguro, sem razão para o ser".
Quando Andermatt e João Lucas se encontraram com ele em 1998 - os dois viajaram até Cabo Verde para fazer audições para "História da Dúvida" - a coreógrafa já havia reparado na "luz e brilho" do músico que tocara no Trindade, em Lisboa, durante "Até ao Fim", coreografia que Manu Preto, director da Raíz de Pólon, trouxe a Portugal em 1997.
Nesse encontro, em que foram ouvidos 20 músicos, João Lucas lembra-se que Pantera tocou três minutos. "Havia algo que transcendia a performance, a relação dele com a música, a forma como o corpo vibrava, as expressões físicas de quem tem um grau de musicalidade elevado. Todo ele vibrava, não era capaz de cantar sem ser com o corpo todo".
Numa entrevista cedida ao Y por Catarina Alves Costa (material que não chegou a usar no seu documentário) Pantera descreve o seu trabalho com teatro e dança: "Não se reproduz só o que se ouve, mas também a pessoa, o homem ou a mulher do interior de Santiago; enquanto se toca tem que se olhar a sua boca, o seu cabelo, a sua raiva, se salta de alegria... Tem que se fazer igual, está-se a imitá-lo, reproduz-se o que se ouve, o que se olha, o que se sente."
E acrescentaria sobre a sua experiência de pesquisa na aldeia de Mato Sanches: "Fiquei muito surpreendido com o comportamento das pessoas, a maneira como vivem, como recebem, o modo que consideram a religião, a simplicidade. São pobres e miseráveis, mas alegres e sinceros. Isto são tudo coisas que aproveito no meu trabalho: esta sinceridade, esta alegria, esta tristeza, esta espontaneidade e força à volta de música."
"É preciso observar, viver e guardar na alma".
À maneira do homem do campo. Na altura em que começou a dar espectáculos, levava as camisas e calças à boca de sino "à maneira do homem do campo", pormenores que ia anotando nos seus papéis - muitos deles a mulher não consegue decifrar, daí que tenha o projecto de reunir tudo para alguém escrever um livro sobre o músico cujas expressões a cantar reproduziam "os homens e as mulheres cabo-verdianas do campo", como descreve Daniel Ribeiro (Nhelas), amigo de Pantera.
Eram estas expressões, o trabalho com o corpo e a recriação do ambiente onde nasceu e cresceu, que Pantera levava para o palco. "Tocava de forma moderna, batia nas cordas como os músicos de rock. Na sua técnica não havia nada de tradicional e era isso que fazia a diferença. Já a cantar, havia semelhança com as cantadeiras de finaçon, na forma como entoava uma frase, outras, como os rappers, ia non stop", define Vladimir Monteiro.
O que é que era inovador? "O facto de Pantera juntar as duas partes que compõem o batuque - o finaçon (textos) e a sambua (ritmo) - com o violão e a voz, fundindo ainda vários estilos (jazz, rock, pop, música africana, brasileira...)."
Raul conta que Pantera escrevia tudo o que pensava e anotava até "os passos que dava no palco". "Escrevia sobre os rituais de morte, a alimentação, a forma de vestir das mulheres e dos homens, o casamento, o nascimento, o baptismo...".
Segundo contou Pantera a Catarina Alves Costa: "Com oito anos já tinha uma certa apreciação da arte e música, influências de ter crescido em Angola e de ter ouvido géneros afro, ritmos que interiorizei. Com 15/16 anos comecei à procura do que é tradicional em Cabo Verde, a ter curiosidade em explorar os géneros que considero um pouco rudes em termos de trabalho técnico, que é muito bonito, mas que em termos melódicos é repetitivo e monótono. Por isso criei um novo rosto e um novo ambiente no batuque e na tabanca. Na tabanca utilizo búzios, que considero um instrumento sublime, utilizo tambores que acho que combinam muito bem com os búzios, e tento explorar ao máximo a voz e o feeling do músico".
Pantera "queria ideias mil", conta Raul Ribeiro. Ângelo, também dos Arkorá, recorda que com ele ouvia do jazz americano ao afro-cubano, da música clássica à coral, discos que trazia de cada sítio por onde viajava - Charlie Parker, Louis Armstrong, Pat Metheny, George Benson, Caeteno Veloso, Djavan, Gilberto Gil, Tom Jobim, Paco de Lucia... De Portugal levou Mário Laginha e Maria João, também Bernardo Sassetti e outros - Djudja, que chegou a partilhar casa com ele em Portugal, diz ainda que Pantera gostava do fado.
Nunca se vai saber como seria o primeiro disco de Pantera. Nem ele próprio o havia definido. "Eram várias as ideias que surgiam de dia para dia", diz Carla. João Lucas notou em Pantera, nos últimos meses de 2000, "ansiedade e ao mesmo tempo uma grande indefinição estética".
"Havia sinais de sucesso - foi convidado para o Festival da Baía das Gatas [homenageado no Festival da Gamboa], para compôr a música para o filme de Flora Gomes ['Nha Fala']...". Ficou com a sensação que Pantera "tinha consciência das suas capacidades, mas não era empreendedor".
Quando conversou com o produtor, Elísio Lopes, Pantera disse-lhe que não queria entrar no 'star system', que queria liberdade, "mais em termos artísticos do que financeiros".
"Não tínhamos fixado tempo, nem orçamento", conta. "Falei-lhe em gravar o disco sozinho - nem sabia que também ia gravar em Portugal e noutros sítios -, mas dei-lhe carta branca para o fazer como quisesse. Ninguém sabe como seria o disco".
No dia em que morreu, Orlando Pantera tinha o estúdio marcado com Elísio Lopes, em França. Seguiria depois para Portugal e daí para o Brasil e Holanda. O produtor cabo-verdiano radicado em França desde os 13 anos tinha-o ouvido pela primeira vez em Janeiro, em casa do músico Geraldo Mendes. Não teve dúvidas de que queria produzir o seu disco; não tem dúvidas de que ainda o quer fazer, a título póstumo. "Tive um choque artístico. A maneira dele tocar viola, de cantar e interpretar... Chorei quando o vi, cheguei a pedir desculpa de estar tão emocionado, de ter a honra de o ouvir. Pela primeira vez na minha vida escrevi uns versos. Eram sobre a luz."
Carla sempre gostou de uma música que várias vezes pedia ao companheiro para ouvir. Chamava-se "Dispidida".
"Agora vejo que teve algum sentido ele morrer. Nessa música ele fala da 'dor que passou e ele próprio procurou', de não ter feito nada do que queria, de não estar bem em lado nenhum - 'deitado não sabe o que fazer, de pé não sabe o que fazer'".

José Vicente Lopes
(in Expresso 17-8-2001)

sexta-feira, setembro 15, 2006

Os percursores na música de Cabo Verde

Música Cabo-verdiana - Os Percursores do Sucesso



Entre 1934 e 2004, dezenas de músicos cabo-verdianos passaram por Lisboa. Uns apenas conseguiram gravar um disco antes de desaparecerem da cena musical enquanto que outros afirmaram-se definitivamente no meio artístico pela obra realizada. São eles B.Leza, Fernando Quejas, Bana, Paulino Vieira, Dany Silva, Tito Paris, Titina e Celina Pereira, entre outros. O maior compositor de Cabo Verde, Francisco Xavier da Cruz, deu o mote em 1940.

B.Leza, como é conhecido, foi convidado a actuar na Exposição Colonial que se realizara em Lisboa. Passado o evento, o compositor e intérprete permaneceu na capital portuguesa para tratamento médico, o que não o impediu de ter uma vida artística rica. Veladimir Romano conta em "Cadernos de um trovador" que a permanência de B.Leza em Lisboa resultou em trocas de «conhecimentos e participações de vária ordem em espectáculos e movimentadas serenatas na zona de São Bento, onde viveu» .

O autor destaca ainda as composições feitas durante este período, nomeadamente "Nôte de Mindelo", apresentada num espectáculo-concurso. Interpretada pela jovem cabo-verdiana Rosinha Figueira, "Nôte de Mindelo" seria a «primeira canção cabo-verdiana vencedora de um concurso musical em Portugal». Foi também em Lisboa onde B. Leza compôs "Mica", em homenagem à Maria Luiza, sua futura esposa. Depois de B.Leza, foi a vez de Fernando Quejas chegar à Lisboa, procedente da Praia.

Tinha 25 anos e um objectivo bem claro: «Sempre quis cantar». O seu sonho concretiza-se na Emissora Nacional onde estreia-se como cançonetista num programa matinal e, mais tarde, em 1952, quando lança o seu primeiro disco pela Columbia Records. Ao longo da sua carreira, Quejas gravou 22 EP's e um CD aos 76 anos de idade (
"Corredor de fundo – Câ no dêxá nôs morna morrê") além de inúmeros programas radiofónicos e acontecimentos culturais de divulgação da cultura cabo-verdiana em Portugal e no estrangeiro, apesar das vozes que no arquipélago criticavam a influência "portuguesa que deixava transparecer nas suas mornas".

Além de ter sido um dos primeiros cabo-verdianos a gravar em Portugal, Quejas marcou a música cabo-verdiano como sendo dos primeiros a introduzir os instrumentos de sopro, o reco-reco e os chocalhos nas suas mornas. Para Mesquitela Lima, o artista falecido em 2005 é o pioneiro da divulgação da música de Cabo Verde em Portugal e quiçá no mundo: «Fernando Quejas, ao sair da sua terra para se fixar em Portugal, já trazia na sua bagagem o pensamento de divulgar a música cabo- verdiana que, seria, ao tempo, desconhecida ou quase desconhecida». Uma preocupação também manifestada por Marino Silva e Edy Moreno, outros pioneiros da música cabo-verdiana em Portugal.

Também Titina beneficiou da abertura portuguesa à música cabo- verdiana antes do 25 de Abril de 1974. A futura grande senhora da música cabo-verdiana sempre viveu num ambiente musical, em São Vicente: um número razoável de discos e um gramofone em casa e dois vizinhos chamados B.Leza e Frank Cavaquim. Estava escrito que o seu destino teria que passar pela música.

E assim aconteceu ainda era moça. Depois das primeiras actuações na sede do clube Castilho e noutros espaços no Mindelo, surgiu o primeiro convite para Lisboa onde Titina acabou por radicar-se anos mais tarde e levar em frente a sua carreira artística. «Fora de Cabo Verde, a nossa música tem um sabor especial», diz aquela que decidiu homenagear B.Leza interpretando as obras do compositor num dos poucos álbuns por ela gravados. Nada mais natural da parte daquela que é chamada Titina de B.Leza.

Após ter passado por algumas comunidades cabo-verdianas, Bana decidiu assentar arraiais em Lisboa.

"Corredor de fundo – Câ no dêxá nôs morna morrê") além de inúmeros programas radiofónicos e acontecimentos culturais de divulgação da cultura cabo-verdiana em Portugal e no estrangeiro, apesar das vozes que no arquipélago criticavam a influência "portuguesa que deixava transparecer nas suas mornas".
Além de ter sido um dos primeiros cabo-verdianos a gravar em Portugal, Quejas marcou a música cabo-verdiano como sendo dos primeiros a introduzir os instrumentos de sopro, o reco-reco e os chocalhos nas suas mornas. Para Mesquitela Lima, o artista falecido em 2005 é o pioneiro da divulgação da música de Cabo Verde em Portugal e quiçá no mundo: «Fernando Quejas, ao sair da sua terra para se fixar em Portugal, já trazia na sua bagagem o pensamento de divulgar a música cabo- verdiana que, seria, ao tempo, desconhecida ou quase desconhecida». Uma preocupação também manifestada por Marino Silva e Edy Moreno, outros pioneiros da música cabo-verdiana em Portugal.

Também Titina beneficiou da abertura portuguesa à música cabo- verdiana antes do 25 de Abril de 1974. A futura grande senhora da música cabo-verdiana sempre viveu num ambiente musical, em São Vicente: um número razoável de discos e um gramofone em casa e dois vizinhos chamados B.Leza e Frank Cavaquim. Estava escrito que o seu destino teria que passar pela música.

E assim aconteceu ainda era moça. Depois das primeiras actuações na sede do clube Castilho e noutros espaços no Mindelo, surgiu o primeiro convite para Lisboa onde Titina acabou por radicar-se anos mais tarde e levar em frente a sua carreira artística. «Fora de Cabo Verde, a nossa música tem um sabor especial», diz aquela que decidiu homenagear B.Leza interpretando as obras do compositor num dos poucos álbuns por ela gravados. Nada mais natural da parte daquela que é chamada Titina de B.Leza.

Após ter passado por algumas comunidades cabo-verdianas, Bana decidiu assentar arraiais em Lisboa.

«Os portugueses gostam de mim e respeitam-me bastante. Noto isso quando subo ao palco. Faz-se logo silêncio e chovem os aplausos» diz aquele que para muitos é o rei da música cabo-verdiana.Como Titina, a sua relação com a música começou bem cedo e passou pela casa de B. Leza. «Era um homem excepcional. Costumava dizer-lhe: Xavier, tu és excepcional. Vives para as pessoas», recorda o cantor. Do compositor cabo-verdiano, Bana herdou a paixão pela morna: «Gosto de cantar mornas, principalmente as mornas do B. Leza cujos versos e melodias são bastante inspiradoras. Disse-me ele um dia: Bana, os versos foram feitos para serem ditos de forma clara.

Os músicos é que devem acompanhar-te» . O desejo de ser cantor levou Bana a emigrar para Dakar aos 29 anos. «Como não tinha meios, procurei o Herculano Vieira e perguntei-lhe se me deixava fugir a bordo do Neptuno. Em seguida, fui bater à porta do Guy para ver se me podia ajudar na compra de um par de sapatos. Além dos sapatos, fabricados por Raul e que custaram 300 escudos, Guy pediu ao Benvindo Fortunato que me enchesse uma mala com roupas»\ recorda.

Acolhido por Becona, Bana começou a dar os primeiros passos em Dakar, nomeadamente no Thêatre Palais, antes de encontrar o compatriota Nuna que lhe propõe a gerência de uma discoteca na capital senegalesa.

«Montei um conjunto com o Luís Morais, o Morgadinho, que mandei buscar em Bissau, e Toy d\'Bibia».\nEm 1961/62, Bana grava o seu primeiro disco e muda-se para a Holanda. Seguiram-se Paris, América e finalmente Lisboa, onde chegou em 1969: «Procurei viver em Cabo Verde depois do 25 de Abril mas não foi possível. Decidi então fixar-me definitivamente em Portugal».

Em Lisboa, Bana inaugura uma editora discográfica e um restaurante/dancing a que chama Monte Cara, e abre as portas da capital portuguesa a um grupo de jovens músicos residentes em Cabo Verde, nomeadamente Leonel, Kabanga, John, Armando Tito, Tito Paris e Paulino Vieira.

«Os portugueses gostam de mim e respeitam-me bastante. Noto isso quando subo ao palco. Faz-se logo silêncio e chovem os aplausos» , diz aquele que para muitos é o rei da música cabo-verdiana.

Como Titina, a sua relação com a música começou bem cedo e passou pela casa de B. Leza. «Era um homem excepcional. Costumava dizer-lhe: Xavier, tu és excepcional. Vives para as pessoas», recorda o cantor. Do compositor cabo-verdiano, Bana herdou a paixão pela morna: «Gosto de cantar mornas, principalmente as mornas do B. Leza cujos versos e melodias são bastante inspiradoras. Disse-me ele um dia: Bana, os versos foram feitos para serem ditos de forma clara. Os músicos é que devem acompanhar-te» .

O desejo de ser cantor levou Bana a emigrar para Dakar aos 29 anos. «Como não tinha meios, procurei o Herculano Vieira e perguntei-lhe se me deixava fugir a bordo do Neptuno. Em seguida, fui bater à porta do Guy para ver se me podia ajudar na compra de um par de sapatos. Além dos sapatos, fabricados por Raul e que custaram 300 escudos, Guy pediu ao Benvindo Fortunato que me enchesse uma mala com roupas» , recorda. Acolhido por Becona, Bana começou a dar os primeiros passos em Dakar, nomeadamente no Thêatre Palais, antes de encontrar o compatriota Nuna que lhe propõe a gerência de uma discoteca na capital senegalesa. «Montei um conjunto com o Luís Morais, o Morgadinho, que mandei buscar em Bissau, e Toy d'Bibia».
Em 1961/62, Bana grava o seu primeiro disco e muda-se para a Holanda. Seguiram-se Paris, América e finalmente Lisboa, onde chegou em 1969: «Procurei viver em Cabo Verde depois do 25 de Abril mas não foi possível. Decidi então fixar-me definitivamente em Portugal» .

Em Lisboa, Bana inaugura uma editora discográfica e um restaurante/dancing a que chama Monte Cara, e abre as portas da capital portuguesa a um grupo de jovens músicos residentes em Cabo Verde, nomeadamente Leonel, Kabanga, John, Armando Tito, Tito Paris e Paulino Vieira.

Apesar da sua juventude, Paulino, futuro pianista do conjunto Voz de Cabo Verde, não deixava indiferente o meio musical. Como muitos, começou pelo violão que aprendeu com o pai, em São Nicolau, a sua ilha natal. Passada a fase de iniciação, o jovem ruma para São Vicente onde prossegue a sua formação musical na escola Salesiana.Paulino Vieira chega a Lisboa no início dos anos 70 e transforma-se rapidamente no líder de Voz de Cabo Verde, do qual é pianista e vocalista.

Exceptuando Luís Morais, um dos membros fundadores do conjunto, este Voz de Cabo Verde é essencialmente integrado por novas figuras como o cantor Leonel ou o baterista Cabanga.

O pianista multiplica as iniciativas inéditas como a realização do álbum "Peace and Love" que junta várias figuras musicais do arquipélago num projecto humanitário, compõe a emblemática morna "M\'cria ser poeta"\n e abre-se a músicos de horizontes diferentes como o moçambicano Watis, num dueto memorável no primeiro aniversário do Baile, a discoteca que anos depois foi baptizado de B.Leza.\n \nApós ter dirigido o grupo de músicos da Cesária Évora no início dos anos 1990, Paulino Vieira retirou-se do meio musical.

«Tinha cumprido a minha tarefa que tinha a ver com o lançamento de certos artistas. Tratou- se de uma aposta total nas potencialidades africanas desde a música até aos seus tocadores», recorda.

Na verdade, o afastamento voluntário do músico deveu-se sobretudo à posição das editoras que, na sua opinião, estavam a escravizar os músicos africanos. «Um fulano passa a vida inteira trabalhando e idealizando um disco quando aparece uma editora que dá uma percentagem mínima. Isso é injusto», denuncia.

Em 2003, o músico regressa à cena musical cabo-verdiana com o disco "Paulino Vieira – Na sua aprendizagem Vol. 1 Guitarra Clássica", totalmente custeado pelo artista, doravante preocupado com o seu trabalho pessoal:

Apesar da sua juventude, Paulino, futuro pianista do conjunto Voz de Cabo Verde, não deixava indiferente o meio musical. Como muitos, começou pelo violão que aprendeu com o pai, em São Nicolau, a sua ilha natal. Passada a fase de iniciação, o jovem ruma para São Vicente onde prossegue a sua formação musical na escola Salesiana.
Paulino Vieira chega a Lisboa no início dos anos 70 e transforma-se rapidamente no líder de Voz de Cabo Verde, do qual é pianista e vocalista. Exceptuando Luís Morais, um dos membros fundadores do conjunto, este Voz de Cabo Verde é essencialmente integrado por novas figuras como o cantor Leonel ou o baterista Cabanga.

O pianista multiplica as iniciativas inéditas como a realização do álbum "Peace and Love" que junta várias figuras musicais do arquipélago num projecto humanitário, compõe a emblemática morna "M'cria ser poeta" e abre-se a músicos de horizontes diferentes como o moçambicano Watis, num dueto memorável no primeiro aniversário do Baile, a discoteca que anos depois foi baptizado de B.Leza.

Após ter dirigido o grupo de músicos da Cesária Évora no início dos anos 1990, Paulino Vieira retirou-se do meio musical. «Tinha cumprido a minha tarefa que tinha a ver com o lançamento de certos artistas.

Tratou- se de uma aposta total nas potencialidades africanas desde a música até aos seus tocadores» , recorda. Na verdade, o afastamento voluntário do músico deveu-se sobretudo à posição das editoras que, na sua opinião, estavam a escravizar os músicos africanos. «Um fulano passa a vida inteira trabalhando e idealizando um disco quando aparece uma editora que dá uma percentagem mínima. Isso é injusto» , denuncia.

Em 2003, o músico regressa à cena musical cabo-verdiana com o disco "Paulino Vieira – Na sua aprendizagem Vol. 1 Guitarra Clássica", totalmente custeado pelo artista, doravante preocupado com o seu trabalho pessoal:

«Depois de utilizar a minha carreira para divulgar os nossos artistas e dar a conhecer ao mundo a riqueza da nossa cultura, quero, agora, divulgar a paz, a confraternização e a justiça através da minha música»\n.\nAté 1982, Tito Paris vivia no Mindelo onde actuara em grupos como Seis Jovens Unidos e Gaiatos, ao lado de outros futuros grandes músicos como Voginha, Bau, Bius e Dudu Araújo. Apesar de ter chegado à capital portuguesa pelas mãos de Bana no início dos anos 80, Tito acabaria por trilhar o seu próprio caminho.

«Estou contente», diz. Não há razão para menos pois ouvir um disco ou presenciar um espectáculo do artista é sinónimo de festa e sabura.\n \nEm 1994, o guitarrista e cantor grava "Dança ma mi criola", um álbum que marca uma nova etapa na evolução da coladera, com um ritmo mais lento que o da coladera do Voz de Cabo Verde ou da coladance de Cabo Verde Show.

A coladera de Tito situa-se entre a morna e a coladera tradicional em que a voz particular do músico faz a diferença. «Sente-se o meu estilo mas vê-se que se trata da coladera. Era importante fazer algo porque a música de Cabo Verde estava a ficar muito fechada», justifica, precisando que Lisboa e o encontro com outras músicas e músicos não estão alheios a esta nova coladera.Tito Paris diz-se feliz e não se importa de ter apenas gravado meia dúzia de álbuns em pouco mais de vinte anos de carreira.

«Não é preciso mostrar a qualidade do teu trabalho em 100 álbuns diferentes. Gosto de gravar de quatro em quatro anos porque dá ao disco o tempo de viver, de ser descoberto pelo público e pela crítica», remata o artista que por razões de saúde se retirou momentaneamente da cena musical em 2004. Quando Tito chegou a Portugal, Dany Silva já lá estava. Apesar de ter começado a tocar violão ao lado do pai, na Boavista, foi na Escola de Regentes Agrícolas de Santarém que se deu a sua primeira grande experiência musical.

«Depois de utilizar a minha carreira para divulgar os nossos artistas e dar a conhecer ao mundo a riqueza da nossa cultura, quero, agora, divulgar a paz, a confraternização e a justiça através da minha música» .

Até 1982, Tito Paris vivia no Mindelo onde actuara em grupos como Seis Jovens Unidos e Gaiatos, ao lado de outros futuros grandes músicos como Voginha, Bau, Bius e Dudu Araújo. Apesar de ter chegado à capital portuguesa pelas mãos de Bana no início dos anos 80, Tito acabaria por trilhar o seu próprio caminho. «Estou contente», diz. Não há razão para menos pois ouvir um disco ou presenciar um espectáculo do artista é sinónimo de festa e sabura.

Em 1994, o guitarrista e cantor grava "Dança ma mi criola", um álbum que marca uma nova etapa na evolução da coladera, com um ritmo mais lento que o da coladera do Voz de Cabo Verde ou da coladance de Cabo Verde Show. A coladera de Tito situa-se entre a morna e a coladera tradicional em que a voz particular do músico faz a diferença.

«Sente-se o meu estilo mas vê-se que se trata da coladera. Era importante fazer algo porque a música de Cabo Verde estava a ficar muito fechada», justifica, precisando que Lisboa e o encontro com outras músicas e músicos não estão alheios a esta nova coladera.

Tito Paris diz-se feliz e não se importa de ter apenas gravado meia dúzia de álbuns em pouco mais de vinte anos de carreira. «Não é preciso mostrar a qualidade do teu trabalho em 100 álbuns diferentes. Gosto de gravar de quatro em quatro anos porque dá ao disco o tempo de viver, de ser descoberto pelo público e pela crítica» , remata o artista que por razões de saúde se retirou momentaneamente da cena musical em 2004.

Quando Tito chegou a Portugal, Dany Silva já lá estava. Apesar de ter começado a tocar violão ao lado do pai, na Boavista, foi na Escola de Regentes Agrícolas de Santarém que se deu a sua primeira grande experiência musical.

«Era um dos cantores do grupo Charruas. Enquanto um colega interpretava canções rock, eu dava voz a sucessos de blues e soul de Ray Charles ou Otis Redding», recorda. Volvidos sete anos, mudou-se para a capital portuguesa e integrou o Quinteto Académico Mais Dois.

Foi nessa altura que o nome do baixista começa a circular no meio artístico local.Em finais dos anos 1980, o músico inaugura um espaço chamado Clave de To, frequentado por vários artistas como o músico português Rui Veloso. A amizade entre os dois seria importante para o cabo-verdiano cujos temas cantados em crioulo chamam a atenção do artista luso.

«Até então, tinha gravado apenas em português pela Valentim de Carvalho. Como fazíamos parte da mesma editora, ele foi falar com os responsáveis no sentido de eu gravar em crioulo», recorda. Assim aconteceu. Desde então, o músico gravou cerca de seis álbuns em crioulo mas abertos a músicos portugueses com duetos com Sérgio Godinho e Carlos do Carmo. A maior parte dos músicos cabo-verdianos têm nos jovens e adultos, o seu principal público.

No caso de Celina Pereira, o grupo de admiradores inclui também várias crianças graças a um programa multicultural concebido pelo violinista Yehudit Menuhin. «Sou contadora de estórias numa escola em Algés desde 1996. O programa concebido por Menuhin nos leva a reflectir sobre o efeito da música nas crianças, sobretudo aquelas que têm problemas em casa» indica.

As estórias de Celina são contadas ao som da música e enquadram-se igualmente no seu projecto de recolha e salvaguarda do património crioulo.Já lá vão uns 20 anos que Celina Pereira escolheu essa via. «O que está em jogo é a nossa identidade», diz, justificando o seu interesse pela preservação da memória cabo-verdiana. O seu primeiro álbum.

«Era um dos cantores do grupo Charruas. Enquanto um colega interpretava canções rock, eu dava voz a sucessos de blues e soul de Ray Charles ou Otis Redding», recorda. Volvidos sete anos, mudou-se para a capital portuguesa e integrou o Quinteto Académico Mais Dois. Foi nessa altura que o nome do baixista começa a circular no meio artístico local.

Em finais dos anos 1980, o músico inaugura um espaço chamado Clave de To, frequentado por vários artistas como o músico português Rui Veloso. A amizade entre os dois seria importante para o cabo-verdiano cujos temas cantados em crioulo chamam a atenção do artista luso. «Até então, tinha gravado apenas em português pela Valentim de Carvalho.

Como fazíamos parte da mesma editora, ele foi falar com os responsáveis no sentido de eu gravar em crioulo», recorda. Assim aconteceu. Desde então, o músico gravou cerca de seis álbuns em crioulo mas abertos a músicos portugueses com duetos com Sérgio Godinho e Carlos do Carmo. A maior parte dos músicos cabo-verdianos têm nos jovens e adultos, o seu principal público.

No caso de Celina Pereira, o grupo de admiradores inclui também várias crianças graças a um programa multicultural concebido pelo violinista Yehudit Menuhin. «Sou contadora de estórias numa escola em Algés desde 1996. O programa concebido por Menuhin nos leva a reflectir sobre o efeito da música nas crianças, sobretudo aquelas que têm problemas em casa» , indica.

As estórias de Celina são contadas ao som da música e enquadram-se igualmente no seu projecto de recolha e salvaguarda do património crioulo.
Já lá vão uns 20 anos que Celina Pereira escolheu essa via. «O que está em jogo é a nossa identidade», diz, justificando o seu interesse pela preservação da memória cabo-verdiana. O seu primeiro álbum,

"Força d\'cretcheu", traz os resultados dessa pesquisa feita na sua ilha de Boavista, noutras localidades de Cabo Verde, em Portugal e junto das outras comunidades cabo-verdianas no estrangeiro. «Tenho sempre o meu gravador comigo», lança.

As pesquisas assumem a forma de cantigas de roda que povoaram a sua infância e que hoje conta às crianças, mazurcas, cantigas de casamento, lunduns e choros. Uma salvaguarda da memória do arquipélago natal que não significa isolamento: o álbum "Harpejos e gorjeios", considerado pela crítica portuguesa um elogio à lusofonia, é sinal dessa abertura ao mundo."

"Força d'cretcheu", traz os resultados dessa pesquisa feita na sua ilha de Boavista, noutras localidades de Cabo Verde, em Portugal e junto das outras comunidades cabo-verdianas no estrangeiro. «Tenho sempre o meu gravador comigo» , lança.
As pesquisas assumem a forma de cantigas de roda que povoaram a sua infância e que hoje conta às crianças, mazurcas, cantigas de casamento, lunduns e choros. Uma salvaguarda da memória do arquipélago natal que não significa isolamento: o álbum "Harpejos e gorjeios", considerado pela crítica portuguesa um elogio à lusofonia, é sinal dessa abertura ao mundo.

sexta-feira, junho 09, 2006

Música de Cabo Verde









21-11-05

Nas rádios, revistas e televisões, nos sítios da internet, piano-bares, jornais e palcos dos quatro cantos do mundo, toca-se, canta-se e fala-se cada vez mais de Cabo Verde.
Qualidade, originalidade e diversidadeMarketing: a força da promoçãoO poder da emigraçãoOnde pára o lobby?Formação precisa-se
Francisca Silva entrou no táxi esmagada pelo cansaço da longa viagem de avião que fizera da ilha do Sal até uma metrópole africana, procurando relaxar no banco de trás. Mas o burburinho circundante e a música, que inundava o veículo, não davam hipótese. Decidida, esta cabo-verdiana preparava-se para pedir ao taxista que diminuísse o volume quando, para surpresa sua, começou a soar os acordes de uma música por demais conhecida. “Sodade”, na voz de Cesária Évora. O nome da protagonista desta cena é fictício, mas o episódio, além de real, assinala apenas um dos muitos palcos onde a música cabo-verdiana se tornou a grande sensação do momento. E não são poucos.
São os programas televisivos e radiofónicos como Kandando, Rijnmond NL, Na Roça com os Tachos, Angola Look, Músicas d’África, Moamba, CP - Estação dos Novos, Linha Africana, Música sem Espinhas... São dezenas de sítios na Internet: o amazon, africultures, le monde, Fnac ou Radio France. São os grandes festivais de "world music", como Womad, Nuits d’Afrique e Angoulême. E “pâ tudo cantu que êl bai” são concertos que seduzem o Japão, encantam a Austrália, despertam o globo para um mundo de dez ilhas perdidas no meio do mar. Não importa qual o género, se morna, coladeira, batuco, funaná, música erudita, pop/rock, r&b ou o cabo-zouk, pois todos eles já carregam uma marca: música de Cabo Verde.
Os músicos cabo-verdianos também não fazem para menos. Sabendo o peso da responsabilidade que carregam nas costas, esforçam-se, lutam contra ventos e marés, insistem, persistem. E é assim que cada vez conquistam mais público, alcançam novos horizontes, vão às raízes, pesquisam e apresentam todos os dias novos sons, novos ritmos. E por isso são elogiados pela crítica especializada, são finalistas ou vencedores de importantes prémios.
A lista dos vencedores, nomeados e renomeados já vai longa. Inclui Tcheka Andrade (vencedor do Prémio Musique RFI 2005). Ferro Gaita (nomeado para Melhor Grupo Tradicional nos Kora Awards 2002). Cesária Évora (que já venceu um Grammy de melhor álbum de world music contemporâneo, em 2004, com o álbum “Voz d’Amor”, foi nomeada para Melhor Artista da África Ocidental nos Kora Awards de 2003 e é este ano candidata a Artista da Década de África). Lura (nomeada para as categorias de Melhor Artista Africano e Melhor Revelação do Prémio BBC 3, edição 2006), Suzanna Lubrano (que é a melhor Artista de África, no Kora Awards 2003, com o disco “Tudo pa bo”), Tó "TC" Cruz (pré-candidato ao Grammy de Melhor Performance Vocal Masculina 2004 com “Truth and Commitment”), Dulce Matias e Johnny Ramos, finalistas nas categoria de Melhor Artista Feminino e Masculino da África Ocidental, edições 2004 e 2005, respectivamente.
Mas a preferência vai além da mera apreciação e ganha lugar nos discos e repertórios de concertos de artistas estrangeiros que ora se arriscam a cantar em crioulo, ora apostam em recriações de temas cabo-verdianos. Quem poderia prever há anos atrás que um dia, no piano-bar de um dos mais importantes hotéis de África, ouvir-se-ia música cabo-verdiana na voz de uma cantora russa que se fazia acompanhar por uma banda da Costa do Marfim? Que os DJs Joe Claussel e François Kerkovian criariam remixes dos êxitos de Cesária Évora? Que bandas de jazz fariam novas versões de temas que são hinos da música cabo-verdiana? Que estrelas do cenário musical internacional desdobrar-se-iam em convites aos músicos destas ilhas para participarem em seus discos?
Ou ainda que um dos temas da trilha sonora de um filme de Almodovar saísse do violino de Bau? Que os ritmos modernos de Gil Semedo entrariam para o filme de Fernando Fragata, “Sorte Nula”, a película portuguesa mais vista em 2004? E que um disco inteirinho de Vasco Martins (“Lunário Perpétuo”) serviria de trilha sonora de um documentário de Garegin Chookaszian intitulado “A História do Genocídio do Povo Arménio”? Que Ferro Gaita levaria os sons do funaná ao festival de Heineken Kalalu World Music, na ilha caribenha de Santa Lucia? Alguém poderia responder “nunca”. Porém, olhando para as características e analisando o percurso da música de Cabo Verde, pode-se afirmar que o estatuto internacional que agora está a conquistar vem sendo forjado há décadas.

Qualidade, originalidade e diversidade

Augusto “Gugas” Veiga, manager dos Ferro-Gaita e proprietário da AV Produções e Kapital Estúdios, não tem dúvidas em afirmar que a primeira razão desse crescente sucesso é a qualidade da música e dos músicos de Cabo Verde. “Os festivais de world music têm dado oportunidade aos artistas e grupos cabo-verdianos de fazerem sucesso porque apresentam um produto de qualidade. Caso contrário, não receberiam convites para tantos eventos importantes”, diz.
Essa qualidade, na opinião do sociólogo César Monteiro, autor do livro “Manuel d’Novas: Música, vida, cabo-verdianidade”, é fruto da “sabedoria” com que os artistas têm articulado os aspectos tradicionais com a modernidade. “A música cabo-verdiana já não é a mesma dos nossos avôs, sobretudo em termos de sonoridade, mas continua agarrada à beleza da poesia que sempre a caracterizou. Isso ajuda na sua aceitação pelos públicos do mundo”.
Para Nuno Sardinha, jornalista da RDP-África, não é este o único condimento que atrai a atenção do mundo para a música cabo-verdiana. Para o apresentador de Músicas sem Espinhas, há outro elemento, “que se prende com factores de métrica musical”. “Os géneros mais divulgados da música de Cabo Verde, sejam eles de âmbito tradicional como as mornas, coladeiras, batuco ou funaná, sejam de âmbito urbano como as chamadas correntes do zouk cantado em crioulo, são por definição ritmos mais abertos à assimilação por parte de outros povos”.
Isto é, as pessoas identificam-se com eles, como explica Maria de Barros, a grande sensação da música crioula nos EUA, eleita personalidade world music 2004 pela revista Essence: “Muitas pessoas, de várias partes do mundo, dizem-me que a minha música é parecida com a deles. É isso que faz a nossa música especial, as pessoas sentem-se imediatamente ligadas a ela”.
Mas Cabo Verde não é o único país que, mesmo não sendo uma potência, tem músicos de grande qualidade. “O mundo está sequioso de novos ritmos, que sejam originais e autênticos e nós cabo-verdianos temos tudo isso”, explica Augusto Veiga, antes de rematar que “o mercado está farto de certos estilos”. Este é, por isso, diz César Monteiro, o momento certo para Cabo Verde divulgar a sua música: “Ainda estamos no início do processo de divulgação da nossa música. Cabo Verde tem ainda para mostrar uma grande diversidade de estilos”, desafia o sociólogo.
Explicando este aspecto aos internautas do site Albuquerque Tribune, dos EUA, o articulista Michael Halstead afirma: “Porque as ilhas de Cabo Verde são separadas por vastas distâncias, cada uma desenvolveu a sua identidade e cultura própria. Como resultado, Cabo Verde oferece um tesouro de rica diversidade musical”. É dessa diversidade que o mundo está à procura, segundo Nuno Sardinha: “O futuro aposta naquilo que de mais típico e diferente os países têm, o que não quer dizer que todos os artistas tenham de ser fiéis à tradição”.
Assim, depois de Cesária Évora conquistar o mundo com as suas mornas e coladeiras, Mayra Andrade, Tcheka, Lura e Ferro Gaita cativam com os seus batucos e funaná estilizados. Com eles, diz Djô da Silva, patrão da editora Lusáfrica, “estamos a conquistar um público diferente, mais jovem”. Porque agora, considera Djudju Tavares, autor de um livro sobre Katchás em preparação, “não importa o estilo, as pessoas estão abertas a outros ritmos Cabo-verdianos, até mais ricos do que a coladeira e a morna”.
Esses “novos” géneros trazem algo mais, anunciam “a nova fé, na vida ki nô ta vivê na nôs terrinha”. Aliás, Michael Halstead explica essa nova forma de ser do povo das ilhas quando diz: “Se as canções de Cesária Évora são essencialmente de lamento e espera, as músicas poli-rítmicas de Lura, mais africanas, reflectem o lado alegre de Cabo Verde”. É que, a intérprete de Na ri na, encarna esta nova faceta do cabo-verdiano, quando diz: “As pessoas de Cabo Verde não têm medo de mostrar as suas emoções e expressam-nas no seu modo de dançar, cantar e tocar”. Opinião corroborada por Maria de Barros: “As pessoas de Cabo Verde são alegres e temos que mostrar isso através da nossa música e dança. Porque, se é certo que gostamos de mornas, certamente também adoramos coladeiras e funanás”.
E agora, depois de Cesária Évora, Ildo Lobo, Bana, outros géneros tomam conta do “terreiro”. Djô da Silva lembra que “até aqui a morna e a coladeira foram os estilos mais tocados por artistas de Cabo Verde, o que consequentemente levou a que fossem mais conhecidos e conectados com o país. O batuco e o funaná começam a percorrer o caminho da divulgação necessária graças a artistas como Lura, Tcheka e Ferro- Gaita”. Porque acrescentam às raízes a “pimenta necessária” para tornar o som dessa mistura simultaneamente única e universal. O curioso, segundo Silva, é haver no caso de Tcheka “um público atento e simultaneamente apreciador de géneros musicais como o rock e o jazz, facto que nunca antes havia sido conseguido por nenhum artista de Cabo Verde”.
Nuno Sardinha, por sua vez, também fala de um fenómeno estranho que acontece em Portugal quando há música de Cabo Verde. “Em espectáculos de novos valores, de ritmos urbanos, o público é principalmente cabo-verdiano. No caso de espectáculos de música tradicional o público é composto por cidadãos portugueses”. Contudo, prossegue, “cada vez mais se assiste a uma valorização dos ritmos tradicionais. É curioso ver a juventude a ouvir cada vez mais funaná ou batuco, mas sobretudo a interpretar suas composições”.

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Marketing: a força da promoção

Cesária Évora, Ildo Lobo, Tcheka, Lura, Ferro-Gaita, Suzanna Lubrano, Maria de Barros, Vasco Martins, Bau e Gil Semedo, só para citar alguns, não são os únicos artistas talentosos de Cabo Verde. Então, por que são eles que estão “na crista da onda”? A palavra mágica parece ser marketing. Augusto Veiga é peremptório ao afirmar que este “é o aspecto mais importante” e exemplifica com o caso Cesária Évora: “Se Cize não tivesse uma poderosa máquina de marketing por trás, talvez o seu talento não fosse suficiente para conquistar tanto sucesso internacional”. Aliás, é sabido quantos longos anos, cerca de 30, a “diva dos pés descalços” cantou sem receber o devido reconhecimento.
O guitarrista Voginha, que gravou o CD “Mar Azul” com Cesária, explica que “antes do disco chegar ao circuito comercial, é preciso promovê-lo na comunicação social a fim de que as pessoas apanhem o gosto”. Para conseguir isso, continua Voginha, “é preciso ter uma boa equipa que, por sua vez, só se arranja com muito dinheiro”. E, mais uma vez, Cize serve de exemplo: “Quando assinou pela Lusáfrica, que está sediada na Europa, Cesária Évora passou a ter uma grande multinacional a apoiá-la, a BMG, que tem ramificações em todo o mundo. Não é à toa que ela tem uma agenda cheia de espectáculos até ao próximo ano”.
Do outro lado do mundo, mais propriamente nos EUA, está a Mendes Brothers Management, dos irmãos João e Ramiro Mendes, que representam artistas como Gil Semedo, Ferro-Gaita, Tó Cruz, Zé Rui de Pina e Suzanna Lubrano. No caso desta cantora foi notória a agressiva promoção que a MB Management fez junto dos media sul-africanos e da região austral nas vésperas dos Kora Awards, em 2003, e que culminou com a atribuição do prémio de Melhor Artista de África a esta badia da Ribeira da Barca.
Este ano, o trabalho dos manos Mendes abriu as portas de inúmeros festivais de world music ao Ferro-Gaita que, aproveitando a oportunidade, fez grandes actuações e garantiu participações em festivais até 2006, nomeadamente no famoso Sounds of Brazil, em Nova York, já no dia 9 de Dezembro e, em Fevereiro de 2006, no American Folk Festival, no Texas. Mayra Andrade, por sua vez, mesmo sem gravar ainda qualquer disco, também tem uma agenda de espectáculos cheia até 2006, não só porque é reconhecidamente talentosa mas também porque tem um empresário - Jacques Chopin - e uma grande multinacional a suportá-la, neste caso, a Sony BMG, com quem assinou um contrato de gravação de cinco discos.
Contudo, há mercados que ainda não franquearam as portas aos ritmos destas ilhas. Os EUA são, ao que tudo indica, o osso mais duro de roer. “Ali, a promoção do disco e da imagem do artista é lei, e nem mesmo os americanos conseguem triunfar se não forem agressivos nessa campanha”, alega Djudju Tavares. Para João Mendes, o problema não está no mercado americano. “Não é difícil penetrar nesse mercado. Os artistas cabo-verdianos têm sido bem sucedidos, conquistando o coração e a alma da América. Temos é que melhorar o nosso trabalho, promovendo mais a nossa música e cultura na América”.
Ou seja, afirma João Mendes, “se a nossa música não estivesse bem enraizada e não fosse forte, não teria sobrevivido entre as outras músicas, que são muito mais promovidas”. Porém, para que o “salto” definitivo aconteça, “os artistas, produtores e compositores, aliás, toda a comunidade musical cabo-verdiana precisa ser educada nos ‘negócios da música’. Precisam aprender os fundamentos da indústria musical, incluindo os aspectos relativos a direitos autorais, contratos, distribuição, promoção, etc. O talento artístico dos cabo-verdianos é fenomenal, mas o seu lado industrial apresenta ainda grandes lacunas de conhecimento”.

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O poder da emigração

Além do marketing, os artistas cabo-verdianos contam com os seus compatriotas radicados nos quatro cantos do mundo “aqui pâ ondé qu’es bai ta cantá ses música ku veneraçon, tá cantal na partida, ta cantal na regresso. É companheru di ses vida”. Augusto Veiga conta que “quando o Ferro-Gaita actuou no Verão, em Toronto, estavam cerca de 60 cabo-verdianos entre a assistência. Logo que iniciámos o espectáculo começaram a dançar e o resto do público imitou-os. No final do concerto, vendemos cerca de 100 CDs no espaço de uma hora”.
Por outro lado, quando está de férias no torrão natal o emigrante compra discos dos seus artistas preferidos e leva-os consigo para o país de acolhimento. Muitos vão parar às rádios, como acontece na Noruega, onde um radialista, casado com uma cabo-verdiana, faz um programa totalmente dedicado à música deste arquipélago e está a trabalhar no sentido de levar grupos crioulos para actuar naquele país da Escandinávia.
E assim a música cabo-verdiana chegou também à Suécia, onde assentou arraiais não só junto dos crioulos como dos suecos de todas as idades que ou se sentem ligados a Cabo Verde ou provaram uma vez a música de Cabo Verde e nunca mais a largaram, transformando-se muitos deles em exímios dançarinos do funaná. Mas Cabo Verde e a sua música também estão na Áustria, levados pelos Simentera e outros, na Finlândia, Itália, Holanda, etc., etc.
Se na maioria dos casos o emigrante é mero espectador, noutros é ele o artista. Fernando Queijas, recentemente falecido, Titina Rodrigues, Voz de Cabo Verde, Splash, Livity, Celina Pereira, Tito Paris, Bana, Suzanna Lubrano, Kino Cabral, Gil Semedo, Cabo Verde Show, Norberto Tavares, Boy Gé Mendes, Mariana Ramos, Amândio Cabral, Maria de Barros, Nancy Vieira, Teófilo Chantre, Dudu Araújo, Nando Cruz, Gilyto, entre tantos outros músicos emigrantes, continuam a fazer e a cantar música destas ilhas, levar a cultura do país que os viu nascer “pa tudo banda qu’es bai”.
“Se vivêssemos isolados e não tivéssemos uma diáspora integrada e activa não teríamos conseguido chegar aonde estamos”, garante César Monteiro, frisando que neste processo a música cabo-verdiana sai a ganhar em dois aspectos: “Por um lado, os artistas emigrantes vêm a Cabo Verde “beber” na fonte da tradição e, por outro, enriquecem a nossa música com os ritmos dos países onde residem. O resultado é uma música mais rica, diversa, transcultural, mas que nunca perde a sua originalidade”.
E é também entre os emigrantes que estão alguns dos maiores produtores da música cabo-verdiana. “Se não fosse o Djô da Silva, radicado na França, Cesária Évora não teria hoje o sucesso que tem”, diz César Monteiro. “É preciso que apareçam, que apostem na abertura de estúdios não só no estrangeiro como em Cabo Verde”, declara por sua vez Voginha. E há que recordar o importante papel da Morabeza Records nos anos 60 do século XX, na Holanda, e mais recentemente da Boa Música, cujo dono é um emigrante Júlio do Rosário. E da Giva Music, dos irmãos Vado e Gil Semedo, também eles emigrantes na terra das tulipas.

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Onde pára o lobby?

No entanto, nem sempre o lobby crioulo, que é nada mais, nada menos do que conhecer as pessoas certas do mundo do showbiz, funciona. É o caso dos EUA. “Se a comunidade cabo-verdiana investir mais na cultura de Cabo Verde, nós conquistaremos mais facilmente os EUA, a exemplo do que aconteceu com a música latina”, diz Djô da Silva. Para o patrão da Lusáfrica, não se justifica que nos EUA, onde existe a maior diáspora cabo-verdiana, “as vendas de discos representem menos de 10 por cento das vendas de música cabo-verdiana no mundo”.
Mas esse estado de coisas está a mudar. Cesária Évora conseguiu finalmente ganhar um grammy, depois de seis nomeações. E Lura, que efectuou recentemente uma digressão que a levou aos EUA, Holanda, Bélgica, Luxemburgo, Alemanha e Reino Unido conseguiu um feedback muito positivo do público e da crítica. E os artistas que não estão ligados à Lusáfrica? “Os norte-americanos têm uma cultura virada para si próprios e dificilmente deixam penetrar a música de outros países. Nós, do Ferro-Gaita, estamos a fazer lobby através da MB Management, Lura, Tcheka e Cesária fazem-no via Lusáfrica, mas há outros artistas que, apesar de serem bastante talentosos, continuam fora desse mercado”.
João Mendes considera que “o lobby sempre ajuda”, contudo, defende, “esse não é o principal ingrediente”. “O que a comunidade musical cabo-verdiana precisa compreender é que a música é uma indústria. Logo, tem que investir em si própria, a começar pelos artistas e produtores musicais. Tem de pensar na promoção de concertos, nos agentes, nas editoras, na gestão, publicidade, lojas de discos, engenheiros de som, estúdios de gravação, etc. Todos estes sectores precisam ser profissionalizados. Só assim conseguiremos criar, distribuir, promover e comercializar a nossa música a nível mundial”, declara Mendes.

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Formação precisa-se

A formação tem sido por isso uma das principais reivindicações da comunidade musical. “Quando se fala da música de Cabo Verde elogia-se muitas vezes o facto de ter músicos intuitivos, autodidactas. Mas, no actual mundo da música, onde a competição é cada vez mais feroz, só o talento não chega, é preciso investir na formação”, alega Voginha que, em São Vicente, lá vai dando o seu contributo com uma pequena escola de música.
Segundo Tó Tavares, director da Escola de Música Pentagrama, na Praia, não é apenas o mundo do showbiz que exige formação académica dos músicos. “Os jovens reivindicam formação, pois já constataram que a música é arte, mas também é ciência e, como qualquer actividade científica, traz muitos benefícios, nomeadamente a possibilidade de conversar em linguagem musical com músicos de outros países, algo que não se tem conseguido até aqui”.
E, apesar da maioria das famílias e do Estado ainda não valorizarem a educação musical, há aqueles que arriscaram, como são os casos de Pedro Moreno, Vamar Martins, Lúcia Cardoso, Hernâni Almeida, Sérgio Figueira, Carlos Baessa, Gardénia Benrós, Maria, Vasco Martins, João e Ramiro Mendes, dentre outros, e conseguiram ultrapassar o preconceito, tornando-se em músicos com formação em conservatórios internacionais.
“O cabo-verdiano é um músico nato, como já me confessaram os professores estrangeiros que têm passado por Cabo Verde. Mas é o conhecimento que lhe permite evoluir e trazer lufadas de ar fresco ao nosso folclore e à nossa maneira de tocar”. E as possibilidades de inovar e estilizar géneros ainda confinados ao folclore serão maiores, na opinião de Tó Tavares, “quando for aberta a Universidade de Cabo Verde”. “Se a música é de facto o nosso maior produto de exportação, a sociedade e o Estado precisam mudar de mentalidade e apostar numa Academia de Música”, defende.
Maria de Barros está disposta a colocar todo o seu prestígio e carisma ao serviço dessa necessária mudança. “Sonho ir a Cabo Verde para fazer saber ao governo quão importante é ter música nas escolas. Porque a música é a nossa vida, o nosso ar, a nossa cultura e a nossa marca no mundo”, afiança a cantora de Dança ma mi.

Breve apontamento sobre nôs muzca







Breves Apontamentos sobre as Formas Musicais existentes em Cabo Verde[1] [1]

Margarida Brito (1998)


Cabo Verde, ao longo da sua história, elaborou uma música tradicional de uma surpreendente vitalidade, recebendo, mesclando, transformando e recriando elementos de outras latitudes, que acabaram por dar origem a géneros fortemente caracterizados e enraizados no seu universo.
Os ritmos assim nascidos traduzem toda a idiossincrasia deste povo e constituem, antes de mais, verdadeiras crónicas vivas e expressivas da sua vida, como companheiros de trabalho, exprimindo a alegria, a nostalgia, a esperança, o amor, a jocosidade, o apego à terra, os problemas existenciais bem como a própria natureza.
É assim, que vamos encontrar muitos géneros vocais e instrumentais comuns a várias ilhas; outros próprios de uma só ilha, de duas ilhas vizinhas ou mesmo distantes; quase todos eles monódicos, às vezes em uníssono e a solo.
Nas ilhas agrícolas, nomeadamente St. Antão, S. Nicolau. S. Tiago, Fogo e Brava, onde o homem cuida da terra que lhe dá o pão para o seu sustento, decerto à custa de dificuldades várias, iremos encontrar as cantigas agrícolas umas vezes doloridas outras alegres.
São as dolentes e plácidas Toadas de Aboio (“colá boi”) em que o homem acompanha o boi ligado ao "trapiche" preso ao seu destino. São melodias verdadeiramente plangentes e profundas, muitas vezes em gama pentatónica, em St. Antão e na Brava.
Nesta última o canto não está ligado ao "trapiche" mas sim às épocas de monda e tomam o nome de Bombena. No livro Cantigas de Trabalho, Osvaldo Osório escreve: "Este canto é usado mais precisamente na altura da plantação da batata doce". E acrescenta: "[...] estas cantigas normalmente nostálgicas e cujos motivos são a saudade e o amor, a despedida para a terra longe, chegam a ser uma forma de emulação no trabalho".
São também as cantigas ligadas às sementeiros ou Cantigas de Monda que se dividem em cantigas de guarda de pardal (ou 'enxotar o pardal'), de guarda dos corvos e das galinhas-de-mato que se encontram nas ilhas de S. Nicolau, St. Antão, S. Tiago e Fogo.
Às vezes estes cantos têm uma estrutura melódica mais ou menos elaborada, com intervalos não muito grandes e, outras ve­zes, são verdadeiros cantos recitativos, ou então, frases declama­das com nuances expressivas que hoje, com a falta de chuva, já quase não são cantadas.
Para além dessas cantigas de trabalho ligadas à terra, existiam também, embora numa escala reduzida, Cantigas Marítimas que retratavam fielmente a fisionomia do caboverdeano; o género de ocupação e a sua dependência e ligação com o mar.
As Cantigas de Ninar, outrora muito cantadas pelas avós, serviam para adormecer os netinhos. Estes adormeciam embala­dos pela seguinte cantilena que mais não passava de um ostinato melódico no compasso binário, hoje quase esquecida:

Outro género cultivado em Cabo Verde com tendência para o esquecimento, diz respeito à geração infantil. Aqui encontramos as Cantigas de Roda e as Lenga-Lengas cantadas, ou em forma de jogos rítmicos, com percussão corporal.
Quem não se lembra das lenga-lengas "Una duna trina catari­na barimbau são dez..." ou de "Doll in dol fatatitiná..." ou ainda da cantiga de roda "A vida do marujinho" dramatizada por tantas crianças, e muitas outras mais, que as deleitavam nas noites de luar em que a televisão não fazia parte das suas vidas, nas ilhas?
É verdade que muitos podem dizer, e têm dito, que elas não nos pertencem, porque são portuguesas e/ou de outra cultura. Porém acabaram por se tornar numa "coisa nossa". Foram adoptadas pelos nossos tetravós e bisavós e muitas delas foram recriadas como é o caso de "pirolito qui bate qui bate" à qual se acrescenta uma estrofe em crioulo. Tornaram-se nossas, tal como os instrumentos de corda que utilizamos para tocar a nossa música: o violão, o violino, o cavaquinho, etc, que vieram de fora e que acabaram por ser perfilhados.
As cantigas de carácter Hierático são fundamentalmente utilizadas nas ilhas de St. Antão, S. Tiago e S. Nicolau. São cantadas "à capela" (sem instrumento) por mulheres e homens, às vezes a três vozes, às vezes em uníssono e em solo, aos quais responde o coro, quase sempre fora das igrejas e em épocas específicas. Dentro desse género encontramos na ilha de S. Nicolau as Divinas, cantada a três vozes num latim arcaico mas com deturpações legítimas se levarmos em conta que são transmitidas de geração em geração o que implica que a versão original se tenha perdido. Em St. Antão, por exemplo, temos as Ladainhas e a Salvé Rainha. Em S. Tiago, as Rezas ou 'Ressas'. Todas elas cantigas litúrgicas, mas que são entoadas pelo povo, fora das igrejas.
As cantigas de carácter Pastoril são cantadas ainda em quase todas as ilhas no dia 31 de Dezembro, Dia de S. Silvestre e no dia 6 de Janeiro, Dia dos Reis, geralmente no compasso binário num andamento moderado. Têm a sua origem nas Janeiras e Reisadas portuguesas. As primeiras são cantadas por crianças, no final da tarde, sacudindo um instrumento feito com tampinhas de garrafa achatadas. Os adultos cantam-nas à noite, mas utilizando o violão, o cavaquinho e o chocalho. Estas cantigas, embora continuem vivas, estão correndo o risco de desaparecer.
Hoje, as crianças praticamente já não as sabem cantar e nem sequer as recriam, o que é uma pena. Se as cantam, cantam-nas da mesma forma, deturpando as expressões como é exemplo "marido honrada" em vez de "mulher honrada".As cantigas do Dia dos Reis estão desaparecendo. Em algumas localidades da ilha da Boavista, há bem pouco tempo ainda se cantavam. Tenho em mente este pequeno fragmento que restou de uma das cantigas que cantávamos no Dia dos Reis e que começa com um intervalo de 4ª justa ascendente "Esta casa/está bem caiada/tanto por dentro como por fora/ a senhora que mora nela/vai nos dar..."
O curioso é que o Pentatónico (a escala pentatónica de 5 notas) usado na música chinesa e na africana, aparece em algumas histórias consideradas tradicionais (pelo menos foram cantadas pelas gerações mais velhas) como é o caso das cantigas: Pastorinho de cabra, Blimunde e Nana Tiguera. No disco Promessa de Teresa Lopes da Silva, com um repertório constituído na sua totalidade pelas recolhas do seu tempo de menina, encontramos uma canção intitulada Sintide, que conta a história de uma mãe cuja filha tinha sido levada para a casa de 'Nho Rei Bandeira', onde o uso do pentatónico é notório com mudanças de andamento. Nesta canção tanto a melodia como a letra evocam a lamentação.
A música Fúnebre, género instrumental, é utilizada, pelo menos em S. Vicente, com um ritmo marcial e dramático. Neste género o sopro de metal é predominante. Às vezes o violino e o violão são utilizados. O tema é único, (popularmente conhecido por Djosa quem mandób morrê) embora muitas vezes, mornas mais tristes sejam tocadas, como é o caso da morna Hora di bai.
As músicas de Casamento (Saúde) dedicadas à noiva ou aos noivos, são tocadas nas zonas rurais de algumas ilhas nomeadamente S. Nicolau e St. Antão. Na ilha da Boavista para além do ritmo executado nos tambores, ao qual se juntam frases declamadas dirigidas à noiva, ('ó m'nina nova/ hoje e qui bu dia/runca dali/ runca dalâ...') existe ainda o Landu ('lundu' ou 'landum') de origem africana, que também foi levado para o Brasil e talvez dali para Portugal. No século XIX ainda o 'landu' era conservado nos Açores. Segundo estudiosos brasileiros o 'lundu' também chamado no Brasil de 'Calundu', inicialmente uma dança em movimento binário, transformou-se depois em canto envolvente e lascivo, um tanto lento, com letras sugestivas e amorosas, por vezes brejeiras.
Na Boavista (em algumas zonas do interior de S. Tiago existe um ritmo análogo ao do 'landu' da Boavista mas não com o mesmo nome) o 'landu', género geralmente instrumental ligado à dança em movimentos vivos e rodopiantes, era dançado nas festas de casamento, mais precisamente por volta da meia-noite, com uma característica peculiar: para o dançar era obrigatório que os homens usassem fato e gravata. Hoje ainda se dança o 'landu' em qualquer festa, mas sem as etiquetas de outrora.
Uma tradição comum a todas as ilhas são as Festas de Romaria. Os ritmos são executados nos tambores com o seu auge, nas festas de S. João Baptista, quando do solstício de Junho. Completam-nos os saltos de fogueiras ('lumenaras') sobretudo nas ilhas de Barlavento. Esta tradição é provavelmente de origem portuguesa.
Pode-se chegar a ela através do pequeno texto que se segue: " [... ] entra o Verão que traz o calor e a abundância. A natureza apresenta-se pletórica de vida e de seiva. A 21 de Junho, o sol atinge o solstício e entra em toda a sua glória e esplendor, e por todo o país se festeja então o S. João com cantigas das fogueiras que recordam o imemorial culto do fogo..." (Fernando Lopes Graça in A Canção Popular Portuguesa).
Por seu lado, Félix Monteiro diz o seguinte: "Em 1745 foi proibida uma dança em Portugal a que se dava o nome de Chegança (popularíssima e plebeia, lasciva, arrebatada, o par solto se unia rapidamente em atritos sensualíssimos - Camara Cascudo)". E acrescenta: "Ao que parece, não chegou a verificar-se a extinção da Chegança em Portugal, mas sim a sua evolução, passando a ser dançada aos grupos de dois pares soltos, por vezes de mãos dadas formando um círculo, os quais alternadamente se aproximam do centro fingindo querer unir-se em umbigadas, para depois se afastarem, ao mesmo tempo que o outro para avançarem para o centro, com os mesmos movimentos com que, noutros tempos, se dançava Colá-San Jon na ilha da Boavista".
Em S. Vicente esse ritmo chamado de Colá San Jom, é dançado aos pares (por homens e mulheres e às vezes mulheres com mulheres) em movimentos de recuo e aproximação tocando-se simultaneamente com a parte superior das coxas.
Em S. Nicolau[1][2] o ritmo é semelhante, variando no andamento (um pouco mais lento) e com uma coreografia típica, sobretudo na zona da Praia Branca, que consiste em duas filas (na sua maioria mulheres) frente a frente com meneios sensuais acompanhados de dizeres maliciosos, um pouco lúbricos, dirigidos aos homens.
Este tipo de coreografia, ao que parece, existe em outros paises. Alejo Carpenter, no livro La Musica en Cuba, afirma o seguinte: "Em 1776, uma frota procedente da Europa e que havia feito escala em Havana, transportou para Vera Cruz (México) alguns emigrantes de cor que levaram com eles um baile chamado El Chuchumbé que obteve um extraordinário êxito e difusão, mas que foi proibido pela Santa Inquisição do México, porque aquela dança cubana causava danos em Vera Cruz particularmente entre as donzelas. Ao referir-se ao El Chuchumbé o informador da Santa Inquisição escrevia: " [... ] as coplas são cantadas por um grupo enquanto outros bailam, seja entre homens e mulheres ou entre quatro mulheres e quatro homens, com movimentos lascivos e batendo barriga contra barriga".
Ainda no mesmo livro Carpenter afirma que um padre chamado Labat descreve uma dança muito parecida, vista por ele em Santo Domingo em 1698 " [...] os bailarinos estão dispostos em duas fileiras; os homens de um lado as mulheres do outro. Saltam, giram sobre si mesmos, aproximam-se, retrocedem para de novo se reunirem ao compasso do tambor [... ] parecia que davam golpes de ventre. Afastam-se logo dando voltas com gestos absolutamente lascivos".
O Batuque, de origem africana, que surge em Cabo Verde provavelmente só na ilha de S. Tiago (existente também no Brasil, através da ida dos escravos, e nos Açores, na ilha de S. Miguel), é executado num ritmo de tempo binário mas de divisão ternária, marcado pela percussão das 'tchabetas e palmas' acompanhadas pela cimboa monocórdica, às quais se juntam o canto e a dança.
Segundo Dulce Almada o Batuque é uma variante do ritmo de San Jon. Esta teoria tem a sua razão de ser na medida em que o Batuque, inicialmente de ritmo binário, (no Brasil este ritmo manteve-se) isto é, num compasso binário simples de dois por quatro, transformou-se no mesmo ritmo de San Jon que é o compasso composto de seis por oito, pois são compassos correspondentes, cada compasso simples corresponde a um compasso composto e vice-versa. No San Jon o andamento é mais acelerado e a poliritmia é mais complexa.
O Finaçon é uma melopeia que consiste num encadeamento de provérbios ou assuntos do quotidiano, declamados, com inflexões vocais, no ritmo de batuque, quase sempre improvisados no momento e normalmente cantado por uma mulher. Esses improvisos podem arrastar-se durante horas.
A Tabanca da ilha de S. Tiago (também existente na ilha do Maio), é um agrupamento muito complexo, provavelmente de origem africana. O ritmo da Tabanca é binário, executado por tambores, cornetins e búzios, estes geralmente em três registos diferentes (grave, médio e agudo) responsáveis pelo ostinato rítmico-melódico, cuja tessitura geralmente é de uma sexta.
Eutrópio Lima da Cruz escreveu que "trata-se essencialmente duma procissão dançada [...] que mobiliza uma vila inteira ou grupo de pessoas unidas para a vida e para a morte [... ] A dança da tabanca é uma manifestação muito importante na vida do grupo.
Esta manifestação colectiva insere o indivíduo num sentimento de solidariedade que confere à procissão uma certa importância e lhe dá uma aparência de organização, magnitude, ritmo e esforço colectivo embora continue sendo um divertimento".
Outrora existiram algumas formas musicais, muito em voga na maior parte das ilhas e que eram dançadas nas chamadas "Danças de Salão", como são exemplos: na ilha da Boavista o Rill ('Reel'), dança de origem irlandesa no compasso 6/8, hoje já extinta; o Maxixe brasileiro, também extinto, dança movimentada com base nos ritmos africanos acentuadamente sincopada, de atmosfera quente e sensual. No Brasil foi uma dança das ruas que depois entrou para as salas sofrendo algumas modificações, passando a ter movimentos e passos mais moderados. Alguns estudiosos brasileiros afirmam ser o Maxixe uma variante do Landu.
Também em Cabo Verde se dançava o Tango (actualmente faz parte do repertório de alguns grupos de dança), o Schottish ('chotisse' em terminologia caboverdeana); o Galope, dança em ritmo binário ainda hoje presente nas festas de casamento no interior de algumas ilhas, que faz parte da última "marca" da Contradança sendo esta também uma tradição bem conservada nas ilhas de S. Nicolau, Boavista e sobretudo em St. Antão. O Bolero, sul-americano e não o espanhol, ainda é tocado por alguns grupos musicais.
A Contradança, segundo Teófilo Delgado, um dos "mandadores" da Contradança da zona de Fontainhas em St. Antão, contém cinco "marcas". Provavelmente com origem na Country-dance inglesa, levada para a Holanda e França nos fins do séc. XVII, adquiriu cidadania francesa, difundindo-se principalmente nas classes médias. Em Cuba a Contradança introduzida pelos franceses acabou por se transformar num género cultivado por todos os compositores crioulos do séc. XIX, com a mudança do compasso 2/4 para 6/8. Em Cabo Verde a Contradança, género instrumental mais ligado à dança, foi talvez introduzida pelos franceses.
A Mazurca é uma dança originária da região polaca da Mazúria (no início dança popular, depois dança aristocrática) em compasso ternário com acento nos contratempos. Em Cabo Verde ainda hoje é dançada e tocada em quase todas as ilhas com incidência nas de St. Antão, S. Nicolau e Boavista. No Fogo existe o Rabolo que é uma variante da Mazurca.
A Valsa, também no ritmo ternário com o primeiro tempo acentuado, é de origem francesa, baseada na galharda provençal que se dançava dando voltas (donde valsa) com o corpo. Os alemães atribuem a sua origem na Allemande (forma musical). Os austríacos, sobretudo os vienenses, cultivaram-na a tal ponto que graças aos compositores Strauss, se tornou numa dança quase nacional. Em Cabo Verde esta foi muito cultivada pelos músicos e compositores podendo, ainda hoje ouvir-se algumas das valsas antigas ou mesmo feitas pelos músicos actuais.
Outras formas musicais também dançadas antigamente são a Polca ou o Fox, entre outras, muito apreciadas pelos músicos, sobretudo pelo grande exímio no violão, Luís Rendall, que foi o maior responsável pela introdução de outra forma musical brasileira, o Chorinho. De todas as formas musicais brasileiras, o Samba é a mais cultivada pelos cabo-verdianos, fazendo parte do repertório tradicional.
O Funaná, música em compasso binário, com andamento duplo, lento-médio e rápido, é assim como todas as outras formas musicais existentes em Cabo Verde, ligado à dança. Inicialmente presente apenas no interior de S. Tiago, passou depois para a cidade, com algumas mudanças no campo instrumental. No princípio era executado na 'Gaita de Mon' (concertina ou acordeão diatónico) e ferrinho, depois passou a ser tocado com instrumentos electrónicos a partir da independência de Cabo Verde, ganhando uma certa virtuosidade e enriquecimento a nível harmónico.
De acordo com pesquisas feitas junto de pessoas mais velhas, em algumas localidades do interior de S. Tiago, o Funaná antigamente era chamado de 'badjo di gaita'. O movimento mais lento era chamado de Samba (de acordo com uma demonstração feita por um senhor com cerca de setenta anos, o Funaná dançava-se como o Samba era dançado antigamente no Brasil).De S. Tiago, o Funaná viajou para as outras ilhas onde é muito apreciado. Dança-se aos pares com movimentos do quadril cadenciados, sensuais e vivos.
A Coladeira, no ritmo binário e de andamento mais moderado que o Funaná, segundo alguns caboverdeanos, apareceu nos anos cinquenta em Cabo Verde. É tocada e dançada sendo também companheira das noites caboverdeanas. É chamada, por algumas pessoas mais velhas, de 'Contra-Tempo', apesar de o termo 'Contra-Tempo' significar fora de tempo, em que a acentuação cai no tempo fraco.
A Coladeira varia no ritmo, de acordo com influências sofridas, sobretudo das músicas latino-americanas e brasileiras e mais recentemente o Zouk, este último muito apreciado pelos jovens nas discotecas.
No seu livro Mornas e Coladeiras de Frank Cavaquim, Moacyr Rodrigues escreve o seguinte: "As músicas estrangeiras como o Baião, o Fox e mais tarde a Cúmbia, vão nela deixar os seus vestígios porque na mesma família. Em muitas ocasiões Merengues e Cúmbias estrangeiras são aproveitadas em ritmo de Coladeira."
Para Jorge Monteiro existem dois tipos de Coladeira: a que nasceu da aceleração do andamento da Morna, isto é, da passagem do compasso quaternário para o compasso binário resultante do cê cortado, e a que nasceu da adaptação dos ritmos estrangeiros no compasso binário.
Para Eutrópio Lima da Cruz, a Coladeira é resultante da passagem da Morna do compasso quaternário (4/4) simples, para o compasso binário composto (6/8).[2][3]
A partir destas teorias podem-se fazer algumas experiências com várias Mornas. O curioso é que, ao tentar fazê-la com a Morna Maria Barba acelerando o andamento mas conservando a sua acentuação, instintivamente deparei-me com o ritmo de Landu e não com o da Coladeira como ela é habitualmente cantada. O mesmo se passou com a Morna Força de Crê-Tcheu.
A Morna é a forma musical cultivada em todas as ilhas de Cabo Verde. De andamento lento, em compasso quaternário simples, esta música, que é a que mais caracteriza o caboverdeano, quanto à sua origem tem sido objecto de atenção e de preocupação de vários estudiosos como Baltazar Lopes, Aurélio Gonçalves, Jorge Monteiro, Félix Monteiro, Manuel Ferreira, Eutrópio Lima da Cruz e Vasco Martins.
Que a Morna sofreu evoluções é um facto inegável, muito embora tenha conservado o seu ritmo. Basta analisarmos e compararmos as mornas das várias gerações, mesmo as mais antigas chegadas até nós, como é o caso de Brada Maria, considerada a mais antiga de Cabo Verde, e segundo Eugénio Tavares, oriunda da ilha Brava. Tem um andamento um pouco menos lento que as posteriores, o tema é único sem partes contrastantes e o ritmo é menos sincopado.
As mornas de B. Leza, como se pode comprovar, são diferentes das de Eugénio Tavares. A riqueza harmónica das mornas do primeiro, ganha com a introdução dos acordes de passagem e segundo Baltazar Lopcs isso verificou-se pela influência que Luís Rendall exerceu sobre B. Leza. Vasco Martins em A Música Tradicional Cabo-Verdiana – I A Morna referindo-se ao mesmo assunto, diz: "As situações harmónicas tornam-se mais complexas a partir de Luís Rendall e B. Leza, no emprego de acordes modulativos [... ] quase sempre a modulação é ao tom relativo maior ou menor e é uma característica ao mesmo tempo, que os acordes de passagem, das mornas do B. Leza e pós B. Leza. Hoje assiste-se também a uma predominância do tom maior relativo, o que produz um novo ambiente à morna, menos dramática e melancólica."
A própria temática das mornas mudou, embora o mar, o amor, o amor à terra natal, temas que tantos poetas cantaram, estejam ainda presentes.
A Morna será sempre a música mais representativa do caboverdeano. Por muito que as pessoas temam pela sua desvirtualização, ela já sofreu influências várias no passado e poderá vir a sofrer ainda outras, mas permanecerá sempre como a morna caboverdeana.
Se alguém tivesse dito a B. Leza que não deveria introduzir as modificações de ordem cromática a nível da harmonia, porque, agindo assim, estaria a "estragar" ou a "matar" a Morna e se B. Leza tivesse dado ouvidos a essa pessoa, hoje de certeza, não teríamos mornas como Eclipse, Noite de Mindelo, Lua Nha Testemunha e tantas outras que serão sempre escutadas com o mesmo deleite musical.
O que aqui fica expresso, é sobretudo válido para atenuar as fortes criticas de que têm sido alvo os jovens compositores das mornas actuais.

[3][1] In “Os Instrumentos Musicais em Cabo Verde”, pp. 13 a 25, Ed. Centro Cultural Português / Praia – Mindelo (1998) Digitalizado por Domingos Morais em Agosto de 1999.
[4][2] Em S. Nicolau, na zona dos Carvoeiros, no dia 23 de Junho (véspera de S. João), um grupo de tamboreiros (mais de 15 !) executa ritmos nos tambores, enquanto as mulheres 'colam' à volta da 'lumenara' (fogueira). (N.A.)
[5][3] Mais certamente para compasso 2/2, com andamento mais rápido. (N.A.)





domingo, maio 28, 2006

1975 – 2005 – 30 Anos de música de Cabo Verde




#1975 – 2005 – 30 Anos de música de Cabo Verde

Neste ano do XXX aniversário da Independência Nacional, as músicas de maior sucesso são da jovem cantora Lura, que interpreta muitas composições de um jovem infelizmente já falecido, mas que deixou marcas: Orlando Pantera. Como ela há muitos outros jovens talentos de vinte e tal anos que cresceram, se educaram e se formaram neste Cabo Verde Independente, todos têm em comum o gosto pela música de Cabo Verde, interpretam o Batuque, o Funaná, algumas vezes a Morna… São conhecidos como os jovens da geração “Pantera”. E desde o ano passado que o Batuque conhece um renascimento, tanto na sua forma tradicional, como na sua forma orquestral e isso se deve muito ao sucesso que alcançou esta forma musical quando interpretada por estes jovens cantores da geração Pantera: Tcheka, Vadú, Lura, Mayra Andrade e muitos outros. Aliás, desde há dois ou três anos que este renascimento do Batuque se traduz pela formação dezenas e dezenas de grupos de Batuque nos diversos bairros da capital! É que nesta época em que vivemos neste ano de 2005, o Batuque, o Funaná os ritmos de manifestações como o Kolá, a Bandeira e Tabanka, são concebidos como algo “normal”, são géneros musicais que integram o vasto panorama da música de Cabo Verde do qual fazem parte a Morna a Coladeira e toda a música que é produzida hoje pelos cabo-verdianos. Quem diria? Há pouco mais de 30 anos, ainda no tempo colonial, Mornas e Coladeiras eram géneros considerados “Folclore” ou “Música Típica”. Na rádio dizia-se com uma certa ousadia “Musica da nossa Terra”! Nessa época, o Batuque, Kolá ou Tabanka eram entendidas como “coisas do povo”, “música de África”, “música de preto”... nem classificação mereciam! Era proibida a subida da Tabanka ao platô da Praia!!! De Badjo Gaita, Ferrinho ou Funaná, nem se ouvia falar ou então era algo exótico.
Esta rápida introdução faz saltar à vista as transformações de vulto que ocorreram desde a Independência até hoje. E no momento em que a música de Cabo Verde já se projectou a nível internacional onde goza de respeito e prestígio, a pergunta que se impõe é: Qual o maior acontecimento registado na música de Cabo Verde nestes últimos 30 anos? Para responder a esta e outras questões ouvimos poetas, escritores, jornalistas, gente da cultura, de varias idades e percursos e como não podia deixar de ser, os músicos (destes, escolhemos até gente que participou ou teve um papel em certos acontecimentos).
Manuel Faustino (um dos compositores de proa no período de 1974/75 quando a música revolucionária era moda), ao responder à pergunta disse: “indiscutivelmente eu poderia falar da emergência do Funaná”. Silva (Silvestre Alfama), baixista do Conjunto Bulimundo, afirmou, “são os grupos que surgiram depois do 25 de Abril, porque houve uma certa explosão cultural e nesses grupos destacam-se o Bulimundo, os Tubarões e o Kolá.” Mário Bettencourt (Russo), baixista do conjunto Os Tubarões, diz “foi a revolução entre aspas efectuada a nível da sonoridade e dos géneros que terá começado com o GIA (Grupo de Intervenção Artística) em S. Vicente! (…) Mas para mim, a grande revolução, foi o aparecimento do Funaná como uma identidade inicialmente de Santiago e que a pouco e pouco foi-se tornando uma identidade nacional que é o que se regista agora.” Santos Nascimento, jornalista, corrobora a afirmação de Bettencourt quando afirma que o Funaná é “um marco importante (…) nestes 30 anos de Independência (…) embora seja da zona de Santiago, mas penso eu que é uma música genuinamente cabo-verdiana (…) produzida por quase todos de que ilha for. Veja que os sanvicentinos estão também a compor música com ritmos do Funaná e também essa plêiade de artistas aí fora (…) da comunidade cabo-verdiana.” A jovem jornalista Matilde Dias considera que a “revolução operada por Catchass é um movimento não só musical, mas cultural e até social.” Estas opiniões são convergentes e podemos desde já avançar que das 20 personalidades interrogadas encontramos unanimidade na resposta sobre esta e sobre muitas outras questões que iremos apresentar ao longo deste artigo. Posto isto propomos ao leitor um flash-back ao ano de 1974 para iniciarmos uma viagem ao longo de três décadas de Música de Cabo Verde. A nossa análise e descrições serão pontuadas pelas respostas das personalidades interrogadas no referido inquérito.
1974/75 - Música revolucionária, retorno às fontes e novas formas musicais
A grande aventura da música de Cabo Verde da segunda metade do século XX até hoje saiu da sombra no ano de 1974 (que precedeu a Independência). Nesse ano aconteceu a revolução dos cravos em Portugal, o processo de Independência das então colónias conheceu um desenvolvimento acelerado. Depois do 25 de Abril vive-se em Cabo Verde uma nova situação política e social, o meio cultural fervilha de ideias e acontecimentos. Emergem nessa época novas formas musicais e novos conceitos (principalmente a nível das letras) e ocorre um debate (polémica?) sobre uma questão que ficou conhecida como o “problema da autenticidade”. O aparecimento naquela época do disco “Protesto e Luta – Música Cabo-verdiana” editado pelo PAIGC, com temática crítica ao colonialismo na Morna e Coladeira, deu o rumo do que viria a ser a música cabo-verdiana nos três anos seguintes: é a chamada fase da música revolucionária ou panfletária. Na Morna e na Coladeira, é introduzida uma temática de crítica ao colonialismo e denúncia de situações de injustiça. Ao mesmo tempo e decorrente do processo de libertação, começa um movimento de revalorização das manifestações culturais que tinham sido desprezadas e reprimidas pelo regime colonial. Esta revalorização será levada às últimas consequências quando aparecem vozes a preconizar uma “recriação” dessas fontes tradicionais de músicas e ritmos com vista se obter novos géneros musicais. Este conceito será o motor que vai impulsionar o percurso da Música de Cabo Verde desde a Independência até hoje.
Mas, voltando aos anos de 74 e 75, uma referência incontornável é o Grupo de Intervenção Artística, GIA, do qual fizeram parte Manuel Faustino e Renato Cardoso entre outras personalidades. Manuel Faustino autor de peças como Serafim[1] afirma que “houve alguma tentativa de inovação que talvez o Renato (Cardoso) tenha levado mais longe do que qualquer das outras pessoas que tentou essa via.” Músicas como “Na Alto Cutelo” ou “Porton di Nos Ilhas” interpretadas pelo conjunto Os Tubarões, demonstram a qualidade e inovação desse compositor que foi Renato Cardoso e o surgimento de uma nova forma musical no contexto da música de Cabo Verde a que muitos chamam balada (forma musical antes inexistente). Renato Cardoso caracterizou este período e as mudanças operadas da seguinte forma: “A música desempenhou um papel muito importante naqueles primeiros tempos de mobilização. (...) durante muito tempo ela serviu como factor de facilitação de comícios com a população, como factor de mobilização no meio emigrante e como razão imediata de encontros entre estudantes. Nesses encontros, através de músicas muito politizadas, fazíamos o debate político em torno da luta para a independência.” [2] Dessa fase convém relembrar composições como “Cabral ca Móri”, Morna de Daniel Rendall um exemplo da nova temática que é utilizada pelos compositores da nova vaga na Morna ou então a Coladeira “Labanta Braço” de Alcides Spencer Brito uma espécie de hino ou saudação à Independência de Cabo Verde uma das obras-primas do período música revolucionária.
Entretanto, outros músicos e compositores “nova vaga”, lançam-se na busca de novas formas musicais a partir de géneros musicais e ritmos existentes. É o movimento de “retorno às fontes” onde se encontram jovens músicos dos quais podemos citar aqueles que criaram o conjunto Kolá em S. Vicente e os integrantes do conjunto Opus 7 na Praia. Este movimento propunha encontrar novas formas musicais a partir das formas tradicionais da nossa música. Experiência que quanto a nós foi iniciada mas não acabada pois, o Kolá acabou por enveredar por um outro caminho totalmente diferente do proposto inicialmente. Os jovens do Opus 7 fizeram um trabalho sobre a Tabanca e ficaram por aí. Muitos dos músicos deste grupo seriam mais tarde os integrantes do Bulimundo, que daria um outro rumo ao movimento de retorno às fontes vindo a protagonizar a partir de 1978 a revolução do Funaná. Há ainda a referir um outro movimento de retorno às fontes, de que o conjunto Nova Aurora, é um dos representantes. Deste grupo fazem parte entre outros Manuel de Novas, Luís Morais e Chico Serra. Trata-se de um movimento de reacção que considera a inovações propostas como contaminação e deturpação, portanto há que recuar no tempo para procurar as verdadeiras raízes. Ver Discografia Selectiva.[3]
A explosão e o início de uma nova caminhada
Entre 1975 e 1977, devido à eclosão dos vários movimentos referidos instala-se uma grande confusão seguida de uma grande explosão na música de Cabo Verde. Dizemos explosão no sentido de uma produção sem precedentes. A confusão instalou-se porque os grupos musicais seguidores, na maior parte das vezes fizeram uma interpretação errónea das ideias desenvolvidas pelos grupos ou movimentos como o G.I.A. ou Kolá. Principalmente em Lisboa, onde as possibilidades de gravação em disco se tornaram mais fáceis e onde há um mercado, assiste-se a uma verdadeira chuva de “gravações – imitações” do que se pode classificar (e ficou conhecido) como “música revolucionária”. Trata-se de um produto pobre a nível de letras e musicalmente medíocre, resultado do que podemos chamar padronização (a nível de composições). É que as ideias do Kolá, Nova Aurora e G.I.A, chegaram com um certo atraso a Lisboa ou Roterdão os centros de produção de discos dessa época, logo os temas produzidos por imitação nessa altura (1976/77 são extemporâneos, “o colonialismo” (tema preferido desses compositores) já tinha passado à história... estávamos já em plena Independência!
A partir de 1978 a fase de produção de música revolucionária entra em declínio e regista-se a entrada em cena de uma nova modalidade de Mornas e Coladeiras do compositor Manuel de Novas que vai fazer escola. Este compositor surpreendeu na época com uma Morna que continha uma temática sugestiva, crítica e de bastante actualidade: “Hoje tud Gote Pintode é um compositor”, uma crítica ácida e bastante oportuna ao panorama da música de Cabo Verde entre os anos de 1974 e 1977. No género Coladeira Manuel de Novas, deixa de utilizar a crítica directa à mulher que tinha feito escola até 1973, para se concentrar na pintura de quadros sociais: “Avenida Marginal”, “Saragaça” etc.
A produção de Manuel de Novas a partir desta altura até hoje, foi tão regular e com uma tal qualidade que ele se impôs como um marco na moderna música de Cabo Verde. Todos os nossos entrevistados apontaram Manuel de Novas como o mais importante nestes 30 anos de Independência. Santos Nascimento, afirma, “De imediato, o compositor que vem em primeiro lugar, penso eu e acho que é de justiça é o Manuel de Novas.” Tomé Varela, linguista e investigador exclama, “se não for maior pelo menos é um dos maiores compositores dos 30 anos da nossa Independência.” Brito Semedo, Presidente do IILP (Instituto de Língua Portuguesa) explica que “pela qualidade e a própria quantidade da produção (…) Manuel de Novas incarna os grandes compositores numa determinada época… No fim do século passado era Eugénio Tavares, depois é o B.Léza e depois é o Manuel de Novas além de outras estrelas à volta.” Daniel Spencer Brito, um jovem compositor que se destacou a partir dos anos 80 é peremptório: “Manuel de Novas… acho que foi o compositor com uma gama muito grande de músicas de boa qualidade”. Para Ismael Fernandes (Totó), guitarrista do Conjunto Os Tubarões, o destaque vai para “Manuel de Novas, dentro daqueles da velha guarda…” O jovem Adão, baixista do conjunto Ferro Gaita, afirma, “no ramo das Mornas e Coladeiras, não há dúvida que é o Manuel de Novas e há o surgimento de novos autores e compositores como o Pantera e o Eduíno do Ferro Gaita que deram uma grande contribuição para a música de Cabo Verde.” Ver Discografia Selectiva.[4]
Os Tubarões, o Bulimundo e a revolução do Funaná
Os Tubarões, é um conjunto que surge em 1969 no seguimento da influências e marcas deixadas pela vinda do conjunto Voz de Cabo Verde em 1968. Recorde-se este conjunto trouxe da Holanda a novidade dos instrumentos electrónicos. Nessa época surgiram diversos grupos neste estilo, mas Os Tubarões, é que vão ter um papel importante e um protagonismo a partir de 1974 que vai marcar a música de Cabo Verde até os anos 90. Este conjunto tem um grupo de músicos de alta qualidade de que se destacam, o cantor e guitarrista Ildo Lobo e o organista Zeca Couto. Recorde-se que entre 1974 e 1975, Ildo Lobo, também faz parte do GIA, onde pontificam, inovadores como Renato Cardoso, Manuel Faustino ou músicos de craveira como Humbertona e Djick Oliveira entre outros. Os Tubarões assumem-se como intérpretes de qualidade e não entram nas polémicas originadas pelos diferentes movimentos estéticos então emergentes. Fazem uma selecção do que há de melhor para o seu reportório e acabam por gravar em disco as melhores composições do Kolá, do movimento G.I.A. e dos compositores inovadores daquele período. Numa parceria de sucesso com Manuel de Novas, obtêm em primeira-mão as novidades deste compositor que são sucesso absoluto. Os Tubarões têm uma postura tal que granjeiam o respeito e sucesso junto do público, dois ingredientes indispensáveis para a consagração e até para a longevidade deste conjunto. Em 1978, Jaime do Rosário nos declarava numa entrevista “Para nós não interessa que fulano toque bem ou que sicrano componha... por sinal, como muita gente tem observado, o nosso conjunto não produz, mas esse facto tem a sua explicação: para nós… o essencial para um conjunto de amadores (como é o nosso caso), o que se pretende é a diversão, para nós e para quem nos escuta. Assim, procuramos executar a música de maneira que ela nos agrade e agrade a quem quer que seja.” [5]
Quase finais dos anos 70, surge o conjunto Bulimundo, sob a orientação de Carlos Alberto Martins (Catchass) que retoma o princípio do retorno às fontes. O seu trabalho incide, fundamentalmente sobre o Funaná e depois ao de leve sobre o Batuque, géneros da Ilha de Santiago com grandes potencialidades até então inexploradas. Carlos Alberto Martins declarou, a propósito “O género que o conjunto se propôs explorar não tinha nenhuma expressão, para além do meio em que era produzido.[6] O conjunto Bulimundo efectuou então um estudo dos ritmos e da estrutura melódica e de acordes do Funaná o que transportou para a execução com uma orquestra de instrumentos eléctricos. No início, transportaram-se simplesmente, as composições de músicos tradicionais, como Séma Lópi ou Kodé di Dona, mas depressa o novo género Funaná (com instrumentos electrónicos), passa a dispor de composições e compositores próprios, bem como de uma quantidade de variantes de ritmo e de orquestrações. Sobre este trabalho Carlos Alberto Martins afirmou, “o Bulimundo esforçou-se para lançar o funaná e desenvolve-lo até ele poder ombrear com os grandes conjuntos e géneros musicais que existem no mundo inteiro”.[7] Nesta mesma época, o músico e compositor Norberto Tavares, gravava em Lisboa, o seu disco que tem o sugestivo título “Volta pa Fonti”, de facto um regresso às fontes da música tradicional: o Batuque e o Funaná. Este trabalho, que teve um enorme sucesso em 1979 antecipa o Bulimundo na gravação desta nova forma do Funaná (electrónico). Os Tubarões nesse meio tempo gravam o Lp “Djonsinho Cabral” que é um Funaná em ritmo de coladeira, e que teve grande sucesso na mesma época.
Controversa no seu início, esta “Nova Musica” só consegue impor-se depois de uma grande luta com os “tradicionalistas” que diziam, estar-se perante a deturpação de um género folclórico, que devia ser conservado e interpretado tal qual. Numa referência à polémica que surgiu quando o Bulimundo lançou na Praia o Funaná, Carlos Alberto Martins disse “Nós fizemos a guerrilha cultural indispensável ao lançamento do Funaná. Um cronista português utilizava esta frase bastante significativa... «pecado de trazer (em 1980?) aos salões da capital o ritmo popular do interior da ilha».” [8] O “Novo-Funaná” (chamemos assim para o diferenciar do Funaná Tradicional) foi sem dúvida, a maior conquista da música cabo-verdiana, no seu processo de evolução e a maior conquista nestes anos da Independência como já escrevi em vários artigos. Por um lado, enriqueceu o panorama musical nacional e por outro levou a uma revalorização da chamada música tradicional (que até então se circunscrevia a realidades regionais ou mesmo locais) e que só viria a ter uma maior expansão nos anos 90.Ver Discografia. [9]
Anos 80 – O começo de uma nova era na música de Cabo Verde
Anos 80 foram a fase da difusão e consolidação das conquistas anteriores e a fase da procura da qualidade. Surgem novos valores e regista-se o regresso das vozes femininas: Titina, Celina, Cesária, que protagonizaram na década de 60 mas também surgem outros valores. Elas, que estiveram ausentes da discografia na fase anterior vão agora fazer sucesso. Aliás, o músico e compositor Norberto Tavares, refere que “O acontecimento mais importante nestes 30 anos é o surgimento de algumas vozes femininas que revelaram muitas potencialidades.”
A procura da qualidade e novos horizontes leva a uma segunda revolução do Funaná, em termos de forma, arranjos e temática, por um grupo de dissidentes do Bulimundo. Zézé (compositor e cantor), com o irmão Zéca (uma bela voz), anunciam no seu primeiro disco a solo (em 1985) os novos caminhos do Funaná. Contam, com a contribuição de dois músicos importantes: Paulino Vieira (na orquestração e arranjos) e Tey G. Santos (no ritmo). O Conjunto Finaçon seria criado logo depois e esta experiência seria continuada com a pesquisa de uma nova temática em versos (que agora abordam essencialmente questões urbanas) e a introdução de novos arranjos e sonoridades. No Conjunto Finaçon, vamos encontrar uma nova técnica de expressão e uma melhor adaptação, dos instrumentos electrónicos ao Funaná. Devido a este estilo mais sofisticado de interpretação, este grupo seria a ponta de lança da internacionalização da música de Cabo Verde nos finais dos anos 80.
Entretanto, em França, grupos como Cabo Verde Show primeiro e depois Mendes e Mendes estão desde 1980 na linha da frente da batalha da divulgação da música das Ilhas na Europa. Devido à moda e necessidades do mercado europeu, estes músicos optam, pela utilização dos temperos da Salsa ou do Samba, que tem muitos pontos de contacto com a Coladeira ou o Funaná, o que deu uma cor muito especial à música por eles produzida.
Nessa mesma época em Lisboa, devemos assinalar Dany Silva, um cantor e baixista, que sempre esteve mais envolvido com o rock e o “rithm and blues” e produz uma música em que se notam essas influências. Dany Silva e Paulino Vieira, para além de músicos foram também os produtores que promoveram muitos artistas. Em particular Paulino, foi um músico que pelos seus arranjos e domínio de vários instrumentos, não só ganha a confiança dos cantores que querem gravar, como passa a ser um nome que dá prestígio a um disco. Na sua carreira a solo, Paulino Vieira, que antes de mais é um teclista, assume-se como guitarrista e cantor. Ele é também um compositor, que procurou sempre uma síntese do que há de bom nos vários quadrantes musicais, mas sem perder de vista as verdadeiras raízes da Morna, da Coladeira ou do Funaná. Nos Estados Unidos, Ramiro Mendes (guitarrista e arranjador), é outra figura de destaque que assume protagonismo nos finais dos anos 80. Como Paulino e Dany, Ramiro tem o mérito de fazer as orquestrações de vários outros cantores e músicos e desempenha um papel preponderante como produtor de vários discos.
No país, ganham fama e notoriedade, muitos novos compositores de talento. De salientar Kaká Barbosa, que explora novas possibilidades do Funaná, ou Nhelas Spencer que procura novos caminhos na Coladeira, Betú e Antero Simas que exploram novas temáticas na Morna. Estes compositores da nova vaga são nomeados logo em segundo lugar depois de Manuel de Novas pela maioria das personalidades entrevistadas no âmbito deste trabalho. Manuel Faustino declara: “Depois do Manuel, há vários bons compositores… nós temos um Antero Simas, nós temos um Renato Cardoso, nós temos um Betú, nós temos o Nhelas Spencer… enfim, nós temos uma plêiade de bons compositores.” Para José Augusto Timas, baterista dos conjuntos Bulimundo e Finaçon, “inevitavelmente o Manuel de Novas, o Betú, Teófilo Chantre…” Ismael Fernandes (Totó) afirma, “Quanto à música em si destaco as músicas do Betú, pela sua profundidade, pela harmonia entre a letra e a música…” Mário Bettencourt diz: “podia também dizer o Daniel Spencer…” Norberto Tavares: “eu não quero nomear nenhum… Antero Simas é um deles…” Daniel Spencer: “mas não deixo de reconhecer que há um jovem… um compositor do calibre de Manuel de Novas que é o Betú… considero o Betú um grande compositor…” Brito Semedo, refere os “compositores na diáspora gente nova que vem na sequência dos da Voz de Cabo Verde como o Paulino Vieira, mais recentemente o Tito Paris. Internamente, na sequência do que foi apresentado nos concursos Todo o Mundo Canta, o Simas. (Antero Simas) (…) Não posso deixar de falar do Betú que está muito mais próximo e continua em termos de produção extremamente activo.” A jovem jornalista Matilde Dias diz: “eu nomearia o Betú… Outro… é claro, eu destacaria o Pantera (…) eu destacaria também o Catchass”. Quando perguntado para outros destaques nestes 30 anos de Independência, Tomé Varela, responde: “eu estou a me lembrar do Betú… estou a lembrar do Nhelas Spencer… mas não posso deixar de lado um Norberto Tavares”. O jovem Hélder que foi o baterista do conjunto Abel Djassi, afirma, “eu considero muito o Betú. Há outro, o Renato Cardoso. Eu tenho particular admiração para estes dois compositores!”
Em finais dos anos 80, a revolução do Funaná ocorrida em Cabo Verde e os frutos dos movimentos do retorno às fontes dão origem na Europa a partir da Holanda a um novo movimento ou estilo. O Funaná em orquestra é nessa época fonte de inspiração e recriação, mas num estilo diferente daquele que se pratica no arquipélago. É que os jovens aí nascidos e criados, sentem-se cabo-verdianos, pois é a cultura dos pais que domina a sua personalidade… Mas, atenção! O meio cultural, europeu em que vivem, vai ter uma influência no produto final. Assim, esses jovens cabo-verdianos de Roterdão ou Paris vão juntar à Coladeira e Funaná toda uma nova instrumentação e tecnologia, obtendo deste modo uma nova sonoridade. É o mundo da electro-acústica aplicado à música de Cabo Verde, que implica longos trabalhos de estúdio, um luxo que os músicos das ilhas não podem oferecer. Com esta nova geração a Morna vai sofrer influências do Rithm & Blues e metamorfosear-se em balada.
Artífices desta nova revolução, nos finais dos anos 80 são os conjuntos, “Livity” com Jorge Neto e “Rabelados” com Beto Dias, primeiro, depois “Gil and The Perfects” e um pouco mais tarde, os “Splash” com Dina Medina e outros. Estes músicos e cantores alcançam grande sucesso e fazem trabalhos de qualidade… mas, a fórmula encontrada depressa é retomada por outros músicos e desemboca nos anos 90 numa produção comercial e cópia pura e simples de ritmos do Zouck das Antilhas. A produção é tão grande e o descambar noutros ritmos com letras em crioulo é tão descarado que há de novo um alarme quanto ao desvio e contaminação da música de Cabo Verde. O sucesso da Cesária e a persistência de um certo grupo de músicos tradicionalistas, são o antídoto e a esperança que impedem os ânimos de se exaltarem.
E aqui surge uma questão (ou alarme?), que tem sido muito referida nos últimos dez anos: a contaminação da nossa música por ritmos estrangeiros, neste caso e concretamente o Zouck das Antilhas. Refira-se que esta questão nos vem perseguindo desde há muito! Nos inícios dos anos 70 foram as Cumbias, nas décadas anteriores foram outros ritmos… Lembro-me agora que o Maestro José Alves dos Reis, no seu Ensaio “Subsídios para o Estudo da Morna” escreveu, “ (...) no século passado (século XIX), com a invasão das polcas, mazurcas, galopes, contradanças, lanceiros, danças de roda, viras, etc. ela (a Morna) não se deixou influenciar”. [10]
Esta questão das influências foi abordada sob diversas formas pelas personalidades entrevistadas no âmbito deste trabalho na resposta à pergunta, “Que transformações ocorreram na nossa música nos últimos 30 anos?” José Augusto Timas refere, “pondo de lado a Morna que vem conhecendo alguma evolução, e pela positiva… houve alguma decadência, os outros ritmos nomeadamente o Funaná, o Batuco, Tabanka, tiveram uma decadência… e a coladeira tende a desaparecer, sufocada pelo Zouck, mas a música de Cabo Verde tende a sobreviver porque há sempre aqueles que tem mão em executá-la de uma maneira mais original… Penso que a música de Cabo Verde vai sobreviver a este movimento zouck.” Tomé Varela, diz que “há quem se manifeste quase que um horror àquilo que se vem fazendo ultimamente em termos de música cabo-verdiana, como zoucks e outras coisas…”. Silva do Bulimundo aponta que “nos últimos tempos há menos ousadia! Isso não quer dizer que não se está fazer nada, mas, há menos ousadia… acho que o comércio invadiu um bocado a área cultural.” Adão, baixista do Ferro Gaita, também aponta “aquelas misturas que foram feitas entre Coladeira e Zouck, (…) não sou contra e não sou a favor… mas eu não faço aquele tipo de trabalho”. Mas há quem veja esta questão pela positiva e com efeitos benéficos na nossa música. Ismael Fernandes (Totó) explica que uma “abertura ao mundo a outros géneros tem feito com que a música tradicional esteja a ganhar uma roupagem mais moderna sem perder as suas características.” Manuel Faustino considera que “A música de Cabo Verde de um modo geral tem sabido conviver com várias influências… há uma tensão que considero extremamente boa entre uma ortodoxia tradicional, excessivamente fechada e um liberalismo extremamente aberto… eu acho que essa tensão é boa e o resultado está aí, quer dizer a liberdade dos compositores, dos executantes…” Ver Discografia Selectiva. [11]
Anos 90: a internacionalização, Cesária e o século XXI
Os anos 90, encontraram o universo musical de Cabo Verde, recheado de inúmeras estrelas e com uma música autêntica e forte, que soube sempre resistir aos embates das modas e estilos musicais, que em cada década têm dominado o mundo. Uma música de Cabo Verde que ao longo dos decénios anteriores soube obter benefícios, das técnicas e inovações chegadas às ilhas, dos mais diversos quadrantes: do swing dos anos 30, ficou o nome tradicional de “Jazz” para a bateria, um instrumento que fez a sua entrada primeiro na formação tradicional a que se chamou “orquestra” e depois ganhou lugar nos conjuntos; do samba e outras formas da música brasileira em moda nos anos 40 ficou o famoso meio-tom; das rumbas e do cha-cha-cha dos anos 50, ficou a percussão (tumbas maracas etc.); do rock dos anos 60, ficaram os instrumentos electrónicos; do disco ou funky dos anos 70, ficaram os sintetizadores, uma abertura de horizontes e uma técnica elaborada que os músicos das fases anteriores não tinham. Afinal, não é Cabo Verde a grande caldeira, em que ferve uma grande sopa de Cultura?
Se a década de 80 se anunciou com o Funaná e a procura da qualidade, os anos 90 anunciam-se como uma preparação, para conquistar o mundo. Com o Bana até certo ponto retirado da cena após uma carreira de mais de 30 anos, surgiu a Cesária Évora, que gravou os seus primeiros discos nos longínquos anos 60 e teve um percurso seguro de quase, trinta anos na pura tradição da morna. Mas por ironia do destino, ela não teve, durante todos esses anos uma projecção digna do seu talento. Tempo longo é certo, mas que permitiu à Cesária Évora, uma maturação, temperada na dura luta pela defesa da autenticidade e das raízes da Morna e Coladeira. Recorde-se, que só depois de obtido o consenso, sobre o lugar de cada género musical, se instala da partir de 1985, um novo panorama musical. Isso vai permitir a emergência da música tradicional, com todas as suas potencialidades. A Morna e a Coladeira, encontram então no talento e na voz de Cesária Évora, o veículo ideal para se revelarem ao mundo, que por coincidência, assiste nesta altura, a um movimento que se dá pelo nome de “World Music”. Os anos 90 pertencem pois com justiça à Cesária... uma vingança do destino e uma vitória da música de Cabo Verde.
As personalidades entrevistadas no âmbito deste trabalho indicaram quase todas, o sucesso da Cesária Évora e a internacionalização da música de Cabo Verde como um dos acontecimentos mais marcantes destes 30 anos de Independência. Ismael Fernandes (Totó) diz que é de realçar, “o grande sucesso da Cesária Évora lá fora, porque, quer a gente queira ou não, isso tem servido de locomotiva para, não só uma verdadeira projecção da música cabo-verdiana lá fora como serviu para abrir as portas para os outros artistas cabo-verdianos, mas também tem sido um factor de projecção e conhecimento do próprio país.” Manuel Faustino, refere “O fenómeno Cesária, que não seria tanta novidade em Cabo Verde, mas particularmente o seu reconhecimento a nível internacional…” Daniel Spencer, afirma com convicção: “foi a consagração da Cesária como artista de renome internacional, acho que não se pode fugir a esse facto não é?” Carvalho Santos diz que a projecção internacional da Cesária Évora “contribuiu para que Cabo Verde fosse mais conhecido no mundo e criou novas oportunidades para os músicos cabo-verdianos”. Brito Semedo destaca “O grande «boom» da divulgação da nossa música deixando de ser apenas uma música do espaço de Cabo Verde nas Ilhas e nas comunidades cabo-verdianas, para sair para o exterior e conquistar as grandes sociedades com outro tipo de música, como uma música étnica com características muito próprias que tem sido muito apreciada.” O pintor Tchalé Figueira aponta, que o maior acontecimento destes 30 anos “é Cabo Verde ter sido reconhecido através da Cesária Évora” e acrescenta que “foi isso que fez com que Cabo Verde fosse reconhecido como um país musical.”
E ao mesmo tempo que se regista a projecção internacional da Cize, em Cabo Verde vive-se nos anos 90 um “revival” do Funaná. O novo género “Funaná em orquestra” que tinha dominado aos anos 80 cede agora o lugar ao Funaná tradicional no qual teve origem. Numa nova fórmula orquestral, gaita e ferrinho, a que se juntam um baixo e bateria acontece a segunda explosão do Funaná. O conjunto Ferro Gaita é o protagonista deste renascer e desta forma musical, que encontrou nos anos 90 uma nova conjuntura cultural. O conjunto Ferro Gaita, alcança rapidamente enorme sucesso e lança-se nos circuitos internacionais, onde a música de Cabo Verde ganha cada vez mais prestígio. De referir ainda que nos finais do passado século XX a música tradicional de Cabo Verde regista trabalhos e pesquisas noutros géneros, como por exemplo os trabalhos nos ritmos e manifestações da Ilha do Fogo. São disso, exemplo as ousadias de Ramiro Mendes e dos Mendes Brothers, que alargaram os horizontes do movimento do retorno às fontes, com pesquisas nos ritmos e tradições da Bandeira, Talaia Baxu etc. Recorde-se, fruto do trabalho e pesquisas das décadas anteriores múltiplos caminhos foram abertos, entre os anos 80 e 90. Mas, nem todas as fontes da música tradicional foram exploradas. E mesmo naquelas em que se bebeu, ainda existe muita água.
Esta questão é também apontada pelos nossos entrevistados. Manuel Faustino refere que nestes últimos anos se registaram “pesquisas interessantes, tentativas interessantes nomeadamente na linha do Orlando Pantera…”. José Augusto Timas diz que “o país evoluiu e tudo tende a evoluir, têm aparecido jovens músicos de muito boa qualidade…” Matilde Dias refere que “começa a haver mais experimentação a partir dos anos 90”. Assim, nos 90, a nova geração enveredou-se sem complexos por novos caminhos e levou até às últimas consequências, as pesquisas inacabadas dos músicos das décadas anteriores. Um dos nomes desta nova geração é Orlando Pantera, que explorou a via do Batuque e Finaçon. Esta uma via com potencialidades inesgotáveis que foi pouco explorada nos anos anteriores. José Maria Barreto, refere que “nesse momento há também o domínio do Batuque (…) há compositores tipo Tcheka que estão a estilizar o Batuque que a meu ver é extremamente bom.” Tomé Varela afirma que “do ponto de vista popular o Funaná tornou-se o género maior da música cabo-verdiana. Mas eu também não devo pôr de lado o Batuque e a extensão que vem tendo, também está contagiando… e não devo esquecer que foi o Catchass quem deu o ponta pé de saída à volta do Batuque…mas infelizmente não teve tanta força tanta garra como o Funaná, mas hoje em dia é notória a ascensão e a dinâmica que o Batuque vem tendo cá dentro do país e não só.”
E no princípio do milénio na esteira do trabalho de Orlando Pantera, o Batuque e Finaçon vão alcançar sucesso internacional com as cantoras Mayra Andrade e Lura. Em 2004 por exemplo, assiste-se a um movimento nunca visto de criação de grupos tradicionais de Batuque nos vários bairros da Cidade da Praia. A chamada geração “Pantera” produz uma música de “fusão” em que se destacam artistas como Isa Pereira e seu grupo, Vadú ou Tcheka… e muitos outros. A geração “Pantera” procura novos horizontes através da exploração dos ritmos do Batuque, Kolá e Funaná, bem como do casamento da instrumentação electrónica com outros géneros musicais. Igualmente destaque neste período é o Conjunto Simentera que explora uma nova sonoridade com base no conjunto tradicional (violões cavaquinho e algumas percussão) a que junta uma concepção de voz como instrumento. Os arranjos são sofisticados, os efeitos são surpreendentes, exóticos até. A jornalista Matilde Dias, afirma, “eu não posso deixar de destacar os Simentera, que muita gente fala de uma revolução no acústico, eu não sei se concordo ou se discordo, eu não tenho uma opinião formada sobre isso, mas fazem um trabalho muito importante no domínio do tradicional… até na internacionalização da nossa música.” O pintor Tchalé Figueira refere o Simentera “como uma proposta polifónica”. Através deste grupo a música de Cabo Verde com uma nova roupagem vai conhecer um grande sucesso na Europa. Figura de proa deste conjunto é o músico e compositor Mário Lúcio Sousa, a que se juntam as vozes de Tété Alhinho, Lena França, Arlinda Santos…
Marginalmente há o surgimento de grupos de rap e hip-hop, que compõem e cantam com letras em crioulo. Não se trata aqui de inovação mas de uma cópia pura e simples do que fazem os jovens negro-americanos e outros. Não entraremos em pormenores sobre esta questão, diremos apenas que, um fenómeno específico de uma sociedade (como é o caso do rap na sociedade norte-americana) terá sempre o gosto de importado numa sociedade com fortes tradições musicais como é a sociedade cabo-verdiana.
No início do século XXI e neste ano do XXX aniversário da Independência de Cabo Verde, os jovens que se lançam na música têm uma melhor preparação técnica, estão melhor apetrechados em termos de abertura de horizontes, cultura e técnica musical. Eles sabem o que querem e sobretudo são cabo-verdianos que amam a sua cultura e a querem desenvolver. Ao lado da produção meramente popular e comercial de sucesso efémero vamos encontrar produções mais sérias trabalhos mais elaborados. Há uma democratização ainda maior da música e surge um conceito de mercado, com produtos para diversos segmentos. É assim que na música de dança para a juventude persiste o casamento da Coladeira com o Zouk, um casamento assumido que recebe nomes como Cola-Dance, Cola-Zouk ou Zouk Love. Neste segmento do mercado o máximo de sofisticação é alcançado pela diva Suzana Lubrano que consegue um sucesso internacional sobretudo a nível do mercado africano. Ver Discografia Selectiva. [12]

Em jeito de conclusão, problemas e destaques
Nestes 30 anos de Independência a música de Cabo Verde, conheceu transformações profundas. A novidade dos finais dos anos 70 foi o Funaná, que depressa conquistou o arquipélago. Os anos 80 constituem o início de uma projecção internacional da Música de Cabo Verde e os anos 90 podem ser os da consolidação das conquistas, com a emergência e afirmação de jovens e novos artistas. A tudo isso se junta uma procura sempre crescente da qualidade na interpretação. A ideia que os nossos entrevistados têm é que houve uma evolução positiva, com cada vez mais qualidade. O músico Silva do Bulimundo afirma que “houve mais abertura da música de Cabo Verde, introduziram-se novos elementos em termos de orquestração,” Ismael Fernandes (Totó) diz que “retomamos de certa forma os instrumentos tradicionais, mas com uma abordagem moderna (…). Isso se deve ao facto dos nossos músicos se terem aprimorado muito a sua forma de interpretar.” Daniel Spencer afirma que “houve mais oportunidade dos músicos tradicionais aparecerem na comunicação social… Houve algum desenvolvimento… mas acho que as coisas pararam um bocadinho é preciso investir mais na música tradicional!” Moacyr Rodrigues acha que em termos de transformações “a música continua a ser a tradicional, com ligeiras alterações. Mas lá fora é que as pessoas muitas vezes motivadas por outros sons, distanciadas do contexto cultural nacional, eles produzem outras músicas. Mas dentro de Cabo Verde… há um empobrecimento apenas – do meu ponto de vista – dos versos do poema… Claro que aparecem novos elementos… novos instrumentos que vão até certo ponto trazer uma nova abordagem da música…” Norberto Tavares um músico a viver na diáspora há 30 anos tem uma outra visão quando diz, “A música tradicional não sofreu muitas transformações, mas na minha opinião acho que houve inovações… Na minha opinião acho que a música tradicional nunca poderia estar a sofrer constantes transformações… Há certas raízes da tradição, que onde quer que estejamos temos que conservar.”
A par dessa evolução e desenvolvimento há problemas que surgiram e há problemas que persistem na música de Cabo Verde. Silva do Bulimundo refere que o “mundo comercial está a tomar conta dos músicos (…) não é que não deve haver comércio, porque não se pode viver sem dinheiro, mas, entretanto, às vezes e nestes últimos anos, acho que se dá menos valor ao aspecto cultural, ou seja, as pessoas querem mais dinheiro do que a cultura, embora às vezes se possa fazer as duas coisas, fazer cultura e ganhar dinheiro, por que todo o trabalho deve ser pago”. Carvalho Santos aponta que “um dos grandes pontos fracos é a tal falta de unidade. (…) Eu acho que a música de Cabo Verde – sobretudo para defender os seus interesses – teria muito mais força, muito mais posição, se houvesse digamos um espírito mínimo de colaboração entre os músicos para levarem tarefas comuns à frente, porque trabalhando assim individualmente pouca coisa podem fazer, salvo o caso da Cesária que todos sabemos qual é o tipo de organização em que ela está.” A jornalista Matilde Dias acha que a promoção de Cabo Verde através da sua música “é um filão que não tem sido explorado convenientemente” porque “não temos uma política cultural” e “os agentes não estão organizados”. Manuel Faustino diz que “um problema extremamente importante é que, até agora nós termos vivido essencialmente da inspiração, da improvisação e da criatividade das pessoas. Precisamos investir seriamente na parte técnica, quer dizer no estudo e na aprendizagem”. O jovem cantor Vadú refere que “há muitos jovens a tocar e que têm boa vontade para a música de Cabo Verde, mas o problema é que só com boa vontade não é possível ir para a frente.” José Maria Barreto, afirma, “Nestes 30 anos acho o que ainda não fizemos é a criação de uma escola de arte, a meu ver uma escola de arte integrada com várias componentes artísticas, música artes plásticas… porque o grande problema de Cabo Verde é a ausência de escola artísticas.” Tchalé Figueira, é de opinião que “não seja sempre a Europa a nos produzir, nós é que devemos produzir a nossa própria cabeça porque temos potencial para isso.”
Um outro dado interessante é visão e interpretação dos nossos entrevistados conforme a faixa etária. Para as pessoas que viveram a Independência e as épocas que se lhe seguiram, há uma coincidência de visão dos acontecimentos destes 30 anos e sua interpretação. Para os jovens (a geração que nasceu aquando ou depois da Independência) como é óbvio o destaque vai para os acontecimentos dos últimos quinze anos. No entanto há ocorrências, personalidades e grupos que pela importância que tiveram deixaram marcas em todas as gerações. É o caso das melhores vozes e conjuntos. [13]
Cesária, Bana, Ildo Lobo e Zeca di Nha Reinalda, são os nomes mais referidos no domínio das vozes que marcaram estes 30 anos. Vale no entanto passar em revista algumas opiniões dos nossos entrevistados. Tomé Varela, depois de indicar a Cesária Évora, exclama: “como voz mesmo, dentro do mundo feminino dentro e fora do país eu destacaria outras vozes que não a da Cesária. Eu destacaria a Maria Alice. A Gardénia seria a segunda…” E quanto a vozes masculinas respondeu: “Bom, destaca-se o nome do Bana, (…) no mundo do Funaná creio que o rei é o Zeca”. Silva do Bulimundo destacou “o Zeca em termos de funaná. Na morna e coladeira, os mais antigos, caso do Bana e Cesária embora pertença a outra geração, mas a sua revelação foi no pós-independência, é sem dúvida a melhor voz de Cabo Verde.” Para Manuel Faustino, a Cesária Évora e o Bana, são as referencias mais sonantes, ainda “O Ildo Lobo!!! O incontornável Ildo Lobo… e a Titina.” José Augusto Timas refere para além da Cesária Évora e Ildo Lobo, as vozes de “Dudu Araújo, Teófilo Chantre, Lura mais recentemente, Maria Alice, Tito Paris… Mirri Lobo… Nesses 30 anos eu teria que falar do Zeca de Nha Reinalda…” Moacyr Rodrigues aponta que “o Zeca, o Bana, a Titina e a Cesária são as grandes vozes!” Ismael Fernandes (Totó) diz: “Vozes, temos: Cesária! Recentemente temos a Lura que tem uma voz extraordinária…Temos, o Ildo, o Ildo Lobo tem que ser destacado não é? Temos o Bana, que se manteve ao longo de todo este tempo, às vezes despedindo, mas regressando, temos que realçar o trabalho dele… Nancy Vieira, temos a Maria Alice… e algumas vozes novas que estão aparecendo como por exemplo a Mayra Andrade e que tem muita qualidade… acho que em termos de vozes estamos bem servidos.” Carvalho Santos afirma: “naturalmente para mim, a Cesária, o Ildo Lobo, há vozes interessantes como a Sãozinha Fonseca a Téte Alhinho enfim…”. Santos Nascimento exclama: “Vozes, inconfundivelmente a Cesária Évora por ela ter sido aquela que levou além fronteiras, todo este Cabo Verde Cultural… dar a César o que é César não é? Depois temos o Bana que foi um dos pioneiros a dar a conhecer a morna além fronteiras”. Matilde Dias, afirma que tem “uma particular paixão pelo Morgadinho” aprecia a Titina e gosta muito da Mayra Andrade e do Albertino. O Adão destaca o Ildo Lobo, a Cesária e o Albertino. O Hélder refere, “uma voz que admito muito é a Maria Alice… para além dela… Lura, Nancy Vieira… Ildo Lobo.”
Quanto aos conjuntos a resposta, de todos os entrevistados, também foi unânime: Tubarões, Bulimundo e Finaçon! Manuel Faustino, refere “Os Tubarões que marcaram uma época importante. Temos os Finaçon. Temos o Cabo Samba, ainda que tenha sido de efémera duração. Um outro grupo de inovou muito mas teve uma duração efémera, um grupo de S. Vicente, o Kolá. Há o Catcháss com o grupo dele…” Para Moacyr Rodrigues, “temos um Cabo Samba que teve momentos altos. E podemos falar dos Tubarões.” O jornalista Santos Nascimento aponta “o conjunto Voz de Cabo Verde… Voz de Cabo Verde da 2.ª geração do Paulino Vieira e outros. Temos também o Bulimundo… O Finançon terá também feito algum trabalho na sequência também do Bulimundo, porque nós temos aí presentes membros que pertenceram também ao anterior conjunto. Há também os Cabo Verde Show dentro da música cabo-verdiana por cabo-verdianos nossos que vivem no estrangeiro…” O jornalista Carvalho Santos diz: “naturalmente para mim Os Tubarões um conjunto que eu vi a nascer e a evoluir… O Bulimundo… O Finançon… isso a nível interno. A nível externo posso salientar os conjuntos da Holanda como o Livity, o que vem dos Estados Unidos, o Mendes Brothers.” O músico e compositor Norberto Tavares afirma: “Acho que o conjunto Finançon, Bulimundo, Tubarões, são os grupos que tiveram muita influência, cada um na sua época. Na diáspora devo salientar o conjunto do Manu Lima (Cabo Verde Show) que introduziu muitas transformações na música de Cabo Verde…” Tomé Varela diz, “dos mais antigos, eu destacaria o Bulimundo. Mais para cá eu não deixaria de lado Finaçon. E actualmente eu destaco o Ferro Gaita.” José Maria Barreto cita “Os Tubarões, o Bulimundo, o Finaçon… também houve o grupo Abel Djassi que foi um viveiro para a malta jovem… também o Voz de Cabo Verde, no seu tempo deu um certo contributo.” Brito Semedo afirma, “o que nos fica assim marcante… Bulimundo, Os Tubarões, antes disso o Voz de Cabo Verde… (…) Esqueci-me de referir à Sementeira. Bem este grupo tem o Mário Lúcio e a geração… diria a geração Pantera é a geração do Mário Lúcio.” Adão refere que “antes da morte do Catchass temos os Bulimundo, depois temos o Kings em S. Vicente… depois, temos o Abel Djassi e Finaçon e agora temos o Ferro Gaita.” O jovem Hélder exclama: “Sinceramente, Os Tubarões foi um marco muito importante neste processo… O Bulimundo, particularmente no Funaná, e recentemente aquilo a que chamam de nova vaga da música tradicional com o Orlando Pantera.”
E finalmente quanto a instrumentistas, que se destacaram nestes 30 anos de Independência, a pergunta surpreendeu julgamos nós porque a música instrumental conheceu um recuo sobretudo em termos de edição discográfica. As respostas são um pouco díspares, mas acabam por ter uma certa convergência. Brito Semedo explica: “Tem que se destacar em termos de pegar na geração da Voz de Cabo Verde, o Luís Morais, juntamente com ele em termos de trompete vem o Morgadinho, piano o Chico Serra… acaba por ser a mesma geração. Depois vem esta gente mais nova fazendo experiências em termos do Batuque e do Funaná”. Maria Barreto diz: “Temos o Baú, temos o Vasco Martins no piano… eu penso que há mais, mas neste momento... Mas quanto a mim o Bau e o Voginha.” Santos Nascimento: “Temos muitos… O Luís Morais! O Paulino Vieira é um instrumentista versátil! Temos um Vasco Martins, dentro do quadro da música de Cabo Verde porque ele também produz música cabo-verdiana é um teclista excepcional, guitarrista também… O Paulino digamos é um grande instrumentista a vários níveis… Temos o Ramiro Mendes dos Mendes Brothers e…” Carvalho Santos: “Como instrumentista, eu não sei se posso considerar como música de Cabo Verde, o Vasco Martins… há outros bons instrumentistas como o Tolase. Aqui na Praia temos um Kim Alves.”
Os músicos que tem uma visão mais apurada quanto a esta questão também convergem. Norberto Tavares respondeu assim: “Dos nomes que me ocorrem… destaco Paulino Vieira, Manu Lima, Kim Alves.” Mário Bettencourt (Russo) – “Temos alguns… Luís Morais, Totinho, Bau, são nomes que me vêm assim… O Quim Alves é um bom guitarrista.” Isamael Fernandes “destaco o Bau, o trabalho dele é extraordinário e temos que lhe dar o devido destaque, temos o Paulino Vieira, porque a gente tem que reconhecer… quer dizer, não só pela polivalência, mas pela qualidade do seu trabalho… também como técnico. Em termos de técnico nós também temos um Quim… O Quim Alves em termos de técnica é um grande instrumentista. Temos o Voginha em S. Vicente”. Silva do Bulimundo “Em termos de instrumentistas, acho que estão lá o Catchass, o Tolase… Para mim, acho que marcou muito esta geração do Kolá, portanto acho o Tolase, o Tey baterista… o Duka o Zéquinha, mas há mais ainda.” Mário Bettencourt (Russo) – “Temos alguns… Luís Morais, Totinho, Bau, são nomes que me vêm assim… O Quim Alves é um bom guitarrista. Daniel Spencer “… Temos um Humbertona! Nas gerações mais recentes não posso deixar de mencionar Voginha, um excelente guitarrista. O Bau! O Quim Alves, ele é um grande guitarrista…” Vadú destaca “o Hernâni de S. Vicente, ele é um grande instrumentista! Temos o Lela Violão, temos o Humbertona.” O Hélder exclama: “Bau, sinceramente não tem igual!”
Praia, 12 de Junho de 2005
Carlos Filipe Gonçalves [14]
Músico e Jornalista
XXX Anos de Música de Cabo Verde - Destaques
Com base na opinião de 20 Personalidades ligadas à Cultura

Compositores

Conj. Musicais
Vozes
Instrumentistas

#Este rico apontamento é da autoria do não menos nobre Jornalista Cultural, Carlos Gonçalves e vem publicado no livro "Cabon Verde, 30 Anos de Culotura".

Parabéns aos ideiais que norteam a belissima obra!

O Editor,

Elisângelo Lopes Ramos
















ulino Vieira
3 - Ensino Musical
4
Ano Novo
Antero Simas
Renato Cardoso
4
Voz de Cabo Verde
Zeca Nha Reinalda
Mayra Andrade
Lura
Vasco Martins
Voginha
4 - Comércio
5
Daniel Spencer
5
Ferro Gaita
Maria Alice
Hernâni
5 – Improviso
6
Catchass
Paulino Vieira
6
Kola
Titina
Humbertona
Acontec. + Import.
7
Alcides Brito,
Eduino Fer.Gaita
Ildo Lobo
7
Abel Djassi,
Mendes Brothers
The Kings
Nancy Vieira
Tcheka

Tolase
Catchass
1 – Projecção Intern.

Jotamont
Mário Lúcio
Norberto Tavar.
8
Cabo Samba
Cabo Verde Show
Simentera
Djosinha
Tito Paris
Albertino
Zeq.Magra
Lela Violão

2 – Qualidade

Teófilo Chantre
Tito Paris
Vasco Martins
Zé di Maio
9
Cordas de Sol,
Djingo, Livity
Mindel Band
Ver a)
Ver b)
3 – Revolu. Funaná

Zezé Nha Reinal




4 – Sucesso Cize

a) – Celina Pereira; Arlinda Santos; Lena França; Isa Pereira, Dudu Araújo; Teófilo Chantre; Mirri Lobo; Saozinha Fonseca; Tete Alhinho, Gardénia Benrós; Paulino Vieira; Princezito; Terezinha Araújo; Zequinha do Bulimundo; Mário Lúcio; Zé Pereira; Morgadinho; Maria de Barros.
b) – Tey Baterista; Duka; Totinho; Arnando Tito; Travadinha; Nho Kzik; Manu Lima; Ramiro Mendes; Norberto Tavares; Morgadinho; Chico Serra; Djick Oliveira; César Lee; Augusto Cego; Tó Tavares.
[1] Composição que foi de novo sucesso há cerca dois anos na voz do Ildo Lobo – CD Ildo Lobo – Intelectual – Ed. Lusafrica – Ref. LC 10412 – Faixa: Serafim.

[2] Entrevista à Televisão Nacional de Cabo Verde no final dos anos 80, transcrita na obra, A Morna Balada, de M. Brito Semedo, Ed. IPC.

[3] - Protesto e Luta – Música de Cabo Verde (Canta Nhô Balta) – Lp Ed. PAIGC – Ref. PAI 274. - Korda Scrabu – Kauguiamo – CD Ed. Manuel Socorro Silva – USA – Lp Ed. PAIGC – Ref. ST-33 PAIGC. - GIA – Grupo de Intervenção Artística – Cassete – Ed. Secretariado Informação e Propaganda do PAIGC (1976). - Nho Balta – No Ca podê comunica – Lp Ed. VCV – Ref. VCV 001-111 - Os Tubarões – Pepe Lopi – CD Ed. Sons d’Africa – Ref. C 121 – Faixas: Labanta Braço; Cabral Ca More; Estrela Negra.

[4] - Bana – Cidália – Lp Ed. Discos Monte Cara – Ref. DMC-111-111 - Os Tubarões – Pepe Lopi – CD Ed. Sons d’Àfrica – Ref. C 121 – Faixa 2 Vent Sueste; Faixa 8 Stranger e um ilusão; Faixa 9 Saragaça. - Os Tubarões – Tchon di Morgado – CD Ed. Sons d’Àfrica – Ref. C 119 – Faixa 2 Nhu; Faixa 4 Cinco di Julho; Faixa 9 Sombras di Distino - Bana – Contratempo – CD Ed. Sons d’Africa – Ref. C 168 – Faixa 1 Contratempo; Faixa 2 Mané Gaída; 6 Oitenta Melodioso.

[5] Entrevista à Televisão Nacional de Cabo Verde no final dos anos 80, transcrita na obra, A Morna Balada, de M. Brito Semedo, Ed. IPC.

[6] Entrevista ao jornal Voz di Povo 5 de Maio de 1984
[7] Artigo “Funaná a Maior Conquista” – publicado no Jornal Tribuna, Dezembro de 1986

[8] Artigo “Funaná a Maior Conquista” – publicado no Jornal Tribuna, Dezembro de 1986

[9] - Os Tubarões – Porton di Nôs Ilha – CD (1996) Ed. Melodie – Ref. 08678.2 (1994). - Os Tubarões Best of – CD - Ed. Sons d’Africa – Ref. 350002. - Bulimundo – CD Ed. Sons d’Af rica Ref. 5 6046 0041 10 - Bulimundo – Djam Brancu Dja – CD Ed. Sons d’Af rica Ref. 5 6044696 004 127.

[10] - Subsídios para o Estudo da Morna – Revista Raízes N.º 21, Junho de 1984

[11] - Cabral e Cabo Verde Show – Nova’s Allegria – CD Ed. Sons d’Africa – Ref. CD 0271.2. - Mendes e Mendes – Grit de Bo Fidje – CD Ed. Blue Move Records – Ref. 11502191 - Cabo Verde Show – Teteya – CD Ed. Sons d’Africa – Ref. CD 0270.2 - Paulino Vieira – M’Cria Ser Poeta – CD Ed. Sons d’Africa – Ref. C 112 - Livity – Harmonia – Lp Ed. Livity/M Da Silva – Ref. 08-030370-20 - Rabelados – Unidade e Amor – CD Ed. Sons d’Africa – Ref. C159 - Gil & Perfetc 2 – CD Ed. GIVA Productions – Ref. GIVA 9603 - Splash – Africana, The Best Of – CD ED. Islands Music Inc. – Ref. RB0299

[12] - Ferro Gaita – Rei di Funaná – CD Ed. Harmonia – Ref. 02305-2 - - Splash – Contradição – CD Ed. RB Records Inc. – Ref. RB0201 - Mendes Brothers – Torre di Control – CD Ed. MB Records – Ref. MB0013 - Cesária Évora – Miss Perfumado – CD Ed. Melodie – Ref. 79540-2. - Cesária Évora – Café Atlântico – CD Ed. Lusafrica – Ref. LC00316 - Cesária Évora – Best Of – CD Ed. Lusafrica – Ref. 262.80-2.

[13] - Ver Quadro: 30 Anos de Música de Cabo Verde – Destaques e Classificação.

[14] - Nota: Este artigo foi elaborado a partir dos textos do capítulo “A Nova Música” do livro “Kab Verd Band” a ser publicado brevemente. Este capítulo é pois sua vez uma ampliação do assunto tendo por base o texto publicado do CD Anthologie de la Music du Cap Verd, Praia, 6 de Junho de 1994.