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terça-feira, abril 11, 2006

Música Cabo-verdiana



1- Eventos socioculturais e memória nacional na música de origem Caboverdeana Júlio ROSANROCH (Sociólogo - Investigador em Sociologia Aplicada)

1.0-Introdução
• Este é um pequeno resumo de um dos capítulos do trabalho de investigação em Sociológica realizado sobre a «Projecção da Música e dos Músicos de Origem Caboverdeana no Exterior de Cabo Verde: As Redes Transnacionais protagonizadas pelos músicos», apresentada também como memória de licenciatura na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas –Universidade Nova de Lisboa, Maio de 2002. Veja também, ainda neste Web Site, dentro do item «Comunidades», no iten «Cultura», o resumo do capítulo “Modos de incorporação da actividade musical caboverdeana nas redes transnacionais”. (Publicação do original em livro a sair brevemente) O objecto de estudo diz despeito ao campo da actividade musical de origem caboverdeana enquanto manifestação social da produção musical que se manifesta na actualidade, recorrendo, por vezes, à história da migração caboverdeana de modo a melhor explicar o que se passa no presente.
A agentes sociais de origem caboverdena, emigrantes e seus descendentes que, de forma profissional ou não, se movem na esfera da actividade musical. Aqueles cuja acção reverta na produção, execução, distribuição, comercialização e consumo de eventos sonoros. Podendo ser agentes residentes em Cabo Verde e ou no estrangeiro. A dimensão transnacional da música leva-nos a considerar a cultura caboverdeana como desterritorializada, na medida em que existe cada vez mais a “tendência para a opacidade entre o global e o local” .
A perspectiva que se quer sublinhar é a de que a cultura caboverdeana não é praticada apenas em Cabo Verde, na medida em que, juntamente com os indivíduos migrantes (músicos, emigrantes) desloca-se dentro das suas redes transnacionais, cruzando fronteiras, levando um ‘repertório cultural seleccionado’, quer através de transportes e tecnologias como através de comunicação, sendo partilhado e potencialmente absorvido por outros (que estão nos outros países de acolhimento e pelo mundo fora) e vice-versa.
Os eventos socioculturais mais referidos nas composições musicais são os festivais de música, o Carnaval, a passagem de ano, as festas de romaria e outras festas tradicionalmente religiosas, como a do Natal, a de S. João e de outros momentos que dizem respeito aos chamados padroeiros das mais diversas ilhas e localidades. Estes eventos também são caracterizados por momentos vividos através de concertos e espectáculos. Visa-se colocar em destaque os músico e os mais variados géneros de música, característicos ou oriundos dos respectivos lugares, particularmente, e de toda a dimensão da música caboverdeana. que melhor promove, ou que melhor faz recordar ou relembrar o evento em causa.
Em todas as ilhas, estes eventos são tradicionalmente cultivados, cada um com as suas particularidades locais, e são representados, quase nas mesmas proporções, pelas comunidades imigrantes nos países de acolhimento, como meio significativo de construção da identidade social. Consoante as épocas festivas também os imigrantes organizam as festividades na diáspora. Estes, apesar de “estarem longe da terra”, transportam consigo o caleidoscópio dos eventos e lutam para preservar um cunho “genuíno”, transmitindo e difundindo aos descendentes a “memória”, através das actividades musicais, dos personagens artísticos, das vozes, dos instrumentos, da dança, dos rituais e da culinária. Os músicos, compositores, intérpretes, instrumentistas, etc., não deixam de incluir, nas suas composições e gravações, géneros musicais que têm a ver com esses eventos sociais.
1.1 - A realização de concursos de vozes:
“Todo o Mundo Canta” Os concursos de vozes e de danças têm sido uma das bases sólidas para o lançamento de muitos iniciantes no mundo transnacional da música feita por músicos de origem caboverdeana, tanto em Cabo Verde, como nos países de acolhimento da emigração caboverdeana. É o caso do jovem Gil Semedo, hoje muito conhecido no mundo da música feita por oriundos de Cabo Verde, mas que começou ganhando os concursos de dança e play back, imitando Michael Jackson na Holanda (foi conhecido como Michael Jackson da Holanda, mas depois foi construindo uma personagem artística própria). É o caso também de muitos outros músicos actuais que se projectaram ganhando concursos de vozes.
1.2 - O lamento na música:
Enxugar as lágrimas com melodias A realidade social do quotidiano ilustrada na música de Cabo Verde remete-nos para o retracto tão enraizado da história de vida do “ser caboverdeano” presente na música, desde o sentimento da dor à alegria, do sofrimento ao consolo, da pobreza à riqueza, para festejar a nascença, a vida ou, até, reagir à morte. «Flor da minha esperança» Se eu soubesse que gente nova morria eu não amava ninguém nesse mundo Esse morna é sonho da minha esperança que já confessou que o teu amor era falso, ó flor Na despedida choraste tanto Magoei-me e chorei também Desde o nascimento, durante a vida até a morte, qualquer ocasião é traduzida com música. Quando, por exemplo, uma pessoa morre em Cabo Verde, a mesma é acompanhada pela Banda Musical Municipal – nomeadamente, ao som da tradicional composição instrumental “Oh Djosa, quem mandôb morrê?”, ou seja, «Oh, Djosa (José), quem te mandou morrer?» - desde a sua casa, até à última morada, e é enterrada “com dignidade” ao som de uma autêntica orquestra ao vivo.
Também se manifesta o sentimento de tristeza nas composições onde se fala da emigração como uma “alternativa obrigatória”, do sentir-se obrigado a ter que partir para a “terra longe” e, ao mesmo tempo, querer ficar, lamentando assim a separação e a “sodad” da “terra querida”, da família, do amor (cretcheu), da “morabeza” (sociabilidade, relações sociais, alegria e maneira de viver e amabilidade) do povo caboverdeano e de ter ainda por concretizar o “sonho de um crioulo”, o de viver “para sempre” nos “Dez Grãozinhos de Terra que Deus espalhou no meio do mar”.
1.3 - A música no carnaval
O carnaval é também um meio de divulgação pública que, para além de divertir e mostrar as mais variadas criações da imaginação sociocultural, é um expositor das composições (letra e música) em género de samba e dos melhores compositores.Os músicos compositores, associados a um grupo carnavalesco, concorrem com as suas composições, que são cantadas, tocadas e dançadas por todo o grupo em forma de desfile público e, como forma de valorizar a composição ganhadora, é atribuído um prémio ao compositor e ao grupo que o representa.Todos os anos, por exemplo, o rei e a rainha dos grupos premiados são convidados para representar toda a riqueza e beleza da música (samba), dos adornos (vestimenta e efeitos especiais), da imaginação (construção dos andores por meio de escultura, pintura e todo o género de criação das artes plásticas) e da realidade do Carnaval caboverdeano no exterior, cruzando fronteiras de diversos países com o propósito de apresentar o produto caboverdeano.
1.4 - Língua e Linguagens da música Caboverdeana na identidade cultural Grande parte dos músicos e compositores musicais interpretam e compõem no crioulo da Ilha de Santiago, seguido do crioulo de S. Vicente, independentemente de serem oriundos de umas ou de outras ilhas que não essas.
Em termos sociológicos a explicação está, relacionada com o facto de haver maior divulgação de composições escritas e musicais nos crioulos dessas ilhas. Também, porque as ilhas de S. Tiago e de S. Vicente, as duas mais povoadas do arquipélago, são aquelas que têm fornecido ou por onde tem passado a maioria dos agentes da actividade musical e músicos de renome na história da construção musical caboverdeana.
1. 5 – A emergência de redes transnacionais Impulsionadas pelos festivais de música realizados em Cabo Verde De há uns anos a está parte, todos os anos, durante o Verão, realizam-se, nalgumas ilhas, festivais de música ou festas de romaria ao longo do ano, principalmente, festas tradicionais relacionadas com festividades religiosas (dias santos católico, padroeiros - Nª Sª da Luz, Nª Sª da Graça,), mas especialmente no verão, de Maio a Agosto, realizam-se festivais internacionais de música ao vivo, que nada têm que ver com a religiosidade, mas com eventos de índole sociocultural. Realiza-se na ilha de Santiago, no mês de Maio, o Festival de Música da Gamboa.Na ilha de S. Vicente o Festival de Música da Baía Das Gatas, o mais antigo e considerado o maior festival de música do país, que se realiza três dias num fim-de-semana com lua cheia, em Agosto. Também, durante o mesmo mês realizam-se o Festival da ilha da Boa Vista, o Festival do Porto Novo, na ilha de Santo Antão.
Em Setembro, realiza-se o Festival de Santa Maria, na ilha do Sal. Propusemo-nos, pois, realizar uma deslocação a Cabo Verde, no Verão de 2000, para aproveitar o ensejo de aí se encontrarem reunidos, nessa altura, alguns dos agentes musicais (intérpretes e agentes comerciais e técnicos associados à actividade musical) que nos interessaria contactar, para avançarmos nas entrevistas que pretendíamos realizar, com vista a caracterizar o funcionamento das redes transnacionais emergentes e analisar as suas relações com as comunidades na Diáspora.
A deslocação incluiu uma ida a S. Vicente e ao Festival de Música da Baía da Gatas. Deste modo e por ser considerado o mais antigo, o pioneiro e mais significativo festival internacional de música que se tem realizado em Cabo Verde, propusemos apresentá-lo aqui com estudo de caso. Não só pelo ensejo de música que apresenta, mas também pela sua importância, enquanto evento social, cultural, económica e politicamente impulsionador da emergência de iniciativas transnacionais na actividade musical com origem caboverdeana (os pormenores desta investigação poderão ser consultados no original).
Toda a gente beneficia do festival, desde a senhora que vende "drops" (rebuçados) no "balaio" à porta de uma escola, ao vendedor ambulante de fatos de banhos, até o melhor hotel da cidade, as agências de turismo, as empresas de comunicações, as transportadoras aéreas, marítima e terrestres, privados e públicos, etc., toda a gente beneficia com a organização do Festival. À medida que se foi profissionalizando a organização, passou-se a acentuar a importância dos músicos com a «instauração de um prémio para os trabalhos inéditos ». Inicialmente, os festivais eram idealizados e organizados por artistas e personagens com intervenções a nível da cultura que se ligaram à criação do festival. Actualmente são iniciativas institucionalizadas e organizadas por comissões a cargo do Pelouro de Cultura das Câmaras Municipais.
O objectivo principal, segundo os artistas que estiveram na base do festival, passaria pela filosofia de promover artistas, dar a conhecer músicos de descendência caboverdeana no mundo e dar a conhecer ao mundo a potencialidade musical da ilha, em particular, e de Cabo Verde, em geral.A intenção de dar oportunidade a artistas de outras ilhas de participarem no festival e promover a cultura do país, em geral, continua a ser o impulsionador principal. A partir do momento em que a Comissão é constituída define-se o perfil do festival .
Os festivais conquistaram uma dimensão tanto nacional, como internacional, na medida em que, desde as primeiras edições, o perfil é traçado com base em participações de músicos e artistas caboverdeanos residentes em Cabo Verde, nas diversas ilhas, e participações de músicos descendentes de caboverdeanos ou emigrados pelos diversos cantos do mundo, por onde se espalha a diáspora caboverdeana. E com participações de músicos estrangeiros de vários países independentemente de terem algum tipo de contacto com Cabo Verde.Os festivais têm uma influência nos caboverdeanos, dentro e fora do país, na medida em que muitas pessoas, residentes nas outras ilhas e no estrangeiro, fazem férias já pensando irem juntar-se com os familiares, amigos e todos os participantes dos festivais. Por outro lado, os festivais vieram preencher um espaço vazio no calendário, na medida em que as pessoas em geral, os músicos, os emigrantes e turistas, em particular, não tinham actividades que pudessem servir de estímulo para calcularem as férias em Cabo Verde.Hoje em dia os festivais são marcantes, decisivos na programação das férias. O êxito dos festivais, enquanto empreendimentos que visam reunir elevado número de pessoas, depende não só da boa vontade, do mérito da organização, da dedicação das comissões e dos músicos, mas também, da consciencialização de todo o público nacional e internacional, que a festa é de todos os que quiserem participar.O mês de Agosto tornou-se especial para todo o funcionamento da vida social, económica, política, cultural e organizacional de Cabo Verde, na medida em que muitos emigrantes, inclusive músicos, organizarem as suas férias para esta época. Passou a ser, também, uma referência obrigatória nas agendas de prestações de serviços das agências de viagens e das companhias aéreas, dos vendedores de toda a espécie, dos hotéis, dos transportes, etc. quer nacionais quer estrangeiros.Os festivais já se tornaram em referências de prestígio nos palmarés de qualquer músico caboverdeano. Apenas o festival Baía das Gatas, por exemplo, envolve uma média de 50 músicos e mais de 15 mil espectadores cada ano. Para além do aspecto musical os festivais são espaços de convívio social, lazer, desportos náuticos, prazeres, gastronomia, ou simplesmente o contemplar da natureza. É também uma época particularmente importante (talvez a mais importante) para os “músicos”, visto que muitos preparam os lançamentos de obras musicais para esta época e planeiam ou contam com os convites de participação nesses tipos de espectáculos pelas ilhas, o que torna esta época muito animada.Os “músicos”, as instituições, as associações, os organizadores de eventos, os comerciantes, agências de turismo, os hotéis, as transportadoras, os meios de comunicação, os observadores, os Governos central e local, as comunidades residentes e emigrantes, em geral, constróem uma rede de relações sociais transnacionais através de todos os tipos de contactos, desde a interacção face a face, em conversas, reuniões, visitas e de encontros formais e informais, à intercomunicação por telefone, por Internet, por fax, por cartas, etc. Cada festival é dedicado a uma causa ou é uma homenagem social, cultural, económica ou política, com o objectivo de transmitir mensagens. No ano 2002, por exemplo, o Festival Baía das Gatas foi dedicado ao conjunto musical “Voz de Cabo Verde”.No ano 2000, foi dedicado a uma causa política, a comemoração dos 25 anos de independência de Cabo Verde. No ano de 1999, foi dedicado a todos os artistas caboverdeanos, uma causa sociocultural. No ano 1996, foi dedicado à Cesária Évora, como reconhecimento do trabalho que ela tem feito na divulgação da música caboverdeana além-fronteira. No ano de 1999, o Festival de Música da Praia de Santa Cruz na ilha da Boa Vista foi consagrado à música caboverdeana e à sua cultura. No ano 1998, o Festival de Santa Maria foi dedicado à causa de Timor Leste, Etc.Etc.
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