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segunda-feira, abril 10, 2006

RADIODIFUSÃO EM CABO VERDE - II



Rádio em Cabo Verde (II) – A “Rádio Praia”



quarta-feira, 20 outubro 2004
A RÁDIO Clube de Cabo Verde foi fundada na Praia em 1945, pelo Alvará nº 2/945. Em Maio desse ano, após a publicação dos estatutos no Boletim Oficial, a direcção faz circular uma carta convidando pessoas a darem o seu apoio à iniciativa, tornando-se sócios-fundadores. Fernando Quejas, que nos facultou a carta recebida na altura, foi um dos que aderiu, e iniciou aí a sua carreira de cantor. A iniciativa surgira em Novembro de 1944, relata num artigo publicado no "Novo Jornal Cabo Verde", em Maio de 1995, o médico e investigador Henrique Santa Rita Vieira: "O chefe dos serviços dos CTT, Rogado Quintino, facultou, com o acordo do governador João de Figueiredo, um aparelho emissor que se encontrava fora de uso, e graças ao saber de Manuel Tomaz Dias, funcionário da Rádio Marconi, as transmissões radiofónicas entraram em actividade."Um artigo de três páginas publicado no "Boletim" em Outubro de 1950 e assinado por Antero Osório recorda também os primórdios da emissora - cujo berço, revela o autor, foi a filial da Companhia Radio Marconi, na Achada de Santo António -, quando era chamada simplesmente "Rádio Praia". Temos poucas informações dos primeiros cinco anos da RCCV, mas a partir de 1950 ela adquire mais força. Em Maio desse ano, na mesma altura em que é declarada corporação de utilidade pública pelo governo da colónia, a emissora organiza um concurso de conjuntos musicais que desperta grande entusiasmo. O "Boletim de Propaganda e Informação" (Junho de 1950) revela que o prémio inicial de 500 escudos, que seria o único, acabou por subir para 1.500 para o primeiro lugar, pois as contribuições que foram chegando, num total de 4.000 escudos, permitiram compensar todos os cinco grupos participantes - cujos nomes, se existiam, e os componentes, infelizmente a publicação não refere. O concurso realizava-se através de votação dos ouvintes, que deviam enviar uma senha indicando o seu grupo preferido, o que aconteceu na Praia, no Fogo e na Brava, pois problemas de transporte impossibilitaram a distribuição das senhas em outros pontos do arquipélago, segundo o "Boletim". Contudo, ficamos a saber que a RCCV chegava a todas as ilhas. No ano seguinte, na edição de Março dessa publicação, é anunciada uma remodelação dos programas da RCCV. Ao longo de muitas edições, a partir de então, a última página do "Boletim" é preenchida com a programação da emissora. O director desta publicação, Bento Levy, foi um dos sócios fundadores da rádio e a dirigiu em diferentes épocas. As emissões inicialmente são diárias, das 18h30 às 20h, e mais tarde passam a começar às 18h. Trazem uma programação variada: música estrangeira das mais variadas origens, fados e guitarradas, a "Revista Feminina", humor, eventualmente palestras e dois noticiários, um no início e outro no fim da emissão. Quanto à música cabo-verdiana, ficamos a saber pela programação o que se podia ouvir: Pipita e seus rapazes e grupo Unidos de Belém aparecem frequentemente, ao longo dos anos 50. Pipita (Pedro Bettencourt), recorde-se, além de músico e professor - manteve durante algum tempo uma escola de música na Praia - é pai dos músicos Mário (Russo) e Quim Bettencourt. O seu grupo aparece por vezes a acompanhar Rui Vera-Cruz em programas de mornas. Fernando Quejas e o Conjunto Florestais aparecem também com frequência, assim como uma formação intitulada Rico's Creoulo Band, para além de concertos da Banda Municipal da Praia, às quintas-feiras. Temos notícias de concursos musicais também pelos finais dos anos 50 e nos 60. O compositor Daniel Rendall informou-nos que as suas irmãs, Bia e Verónica, participavam dessas actividades, e refere os músicos Djedje Matias e Djodja como acompanhantes. O próprio Daniel Rendall veio a participar de um desses concursos por volta de 1963. "O concurso decorria nos estúdios da rádio, e a votação era feita por telefone, telegrama ou carta. No fim, montava-se o palco no largo do ténis, onde na altura não havia nada; por lá passaram muitos grupos e cantores", recorda, lembrando o nome de Ima Costa, que também era locutora da rádio, como uma das intérpretes que participaram. O jornal "Arquipélago", em Abril de 1964, dá conta da realização de um desses concursos, mas com a apresentação dos grupos no cine-teatro. Em 1954, ao completar nove anos de actividades, altura em que Jaime de Figueiredo assume a sua direcção, as instalações da rádio passam para o primeiro andar do edifício recém-construído na praça Alexandre Alburquerque (hoje agência do BCA) para ser a sede da SAGA (Sociedade de Abastecimento de Géneros Alimentícios). Nesse espaço, um verdadeiro clube recreativo iniciou as suas actividades, as quais por vezes terão quase suplantado as de radiodifusão, pelo que dá a entender o discurso de posse da direcção que toma posse em 1961, quando Bento Levy volta à RCCV, depois de quase dez anos afastado: "... desejo lembrar que (...) a radiodifusão constitui a função principal do Rádio Clube e que esta não pode ser postergada em benefício exclusivo, ou mesmo prevalecente, da vida social a estabelecer." Ao completar um quarto de século, em Maio em 1970, teve lugar uma série de actividades sociais, como um almoço de homenagem aos fundadores e um baile, para além de uma emissão especial, com colaborações de Anastácio Filinto Silva, Ramiro Azevedo, Raul Barbosa, entre outros. O "Arquipélago" destaca ainda um programa de meia hora com o conjunto Doc Bay, formado pelas irmãs Benrós de Melo (Georgina e Viviane) e Pedro Bettencourt. A RCCV existiu até a altura da independência, quando apenas a actividade de radiodifusão se manteve, então como Rádio Nacional. Para as próximas crónicas, convido aqueles que têm histórias e recordações para contar sobre as antigas rádios mindelenses - como espontaneamente fez o jornalista João Matos, da RFI, a quem agradeço - a enviar os seus depoimentos. Estes breves apontamentos não têm a pretensão de contar a história deste meio de comunicação em Cabo Verde - resultam, simplesmente, do que encontrei nos periódicos cabo-verdianos ao procurar referências à música e seus personagens ao longo do século XX. Mas quem sabe estas linhas possam contribuir para despertar o interesse de outros investigadores, pois é uma história que merece um trabalho específico e com profundidade.
Por Glaúcia Nogueira

1 Comments:

Blogger cid simoes said...

aqui podera encontrar um testemunho por mim vivido
http://aspalavrassaoarmas.blogspot.pt/2011/01/o-relato-da-bola.html

30/11/15 09:02

 

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