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segunda-feira, abril 10, 2006

RADIODIFUSÃO EM CABO VERDE - III


Rádio em Cabo Verde (III) – Uma história de ouvintes exigentes



quarta-feira, 27 outubro 2004

EM OUTUBRO de 1950, "Cabo Verde - Boletim de Propaganda a Informação" publica um artigo assinado por Antero Osório sobre a Rádio Clube de Cabo Verde, na altura com cinco anos de existência, dando a noção da sua importância naquele momento quanto à veiculação de notícias e programas culturais. Para além de "Claridade" - "que arrancou a sua existência consciente somente a meia dúzia de anos ou pouco mais da forte malha tecida pela resistência passiva que paira sobre o ar carregado dos nossos climas" -, do aparecimento de "Certeza" e de "Cabo Verde" ("Boletim de Propaganda..."), além do persistente "Notícias de Cabo Verde", o autor coloca a radiodifusão "na cúpula" da mídia da época. Osório exorta a que, do campo material, os responsáveis procurem obter melhoramentos técnicos, a que não faltem com as quotizações e que, no campo moral, façam guerra aos detractores, impedindo "ventilar questões pessoais ou que se travem lutas de parcelas em detrimento das regalias da colectividade". Meses depois, Guilherme Rocheteau, em "Caminhos da Radiodifusão" ("Boletim", Janeiro 1951), ressalta a responsabilidade das rádios face à situação de insularidade e atraso."Dispondo de duas ou três estações [na altura, a RCCV, a Rádio Clube do Mindelo e a chamada Rádio Pedro Afonso] (...) não é cedo demais que elas cumpram desde já os objectivos da sua superior finalidade. Há que lhes determinar uma posição de estabilidade e permanência, nunca as desvirtuando fazendo delas um recreio e um capricho de grupos ou classes, e confiar-lhes a penetração sistemática de todas as camadas sociais, numa campanha sem precedentes de renovação técnica e de cultura popular", afirma. Rocheteau esclarece o que define como renovação técnica: "A preparação do povo de modo a intervir, efectiva e largamente no plano de ressurgimento que um dia se determinar para a agricultura, para a indústria e a economia de Cabo Verde, através dos conhecimentos que lhe permitam transitar dos processos antiquados aos mais modernos resultados das ciências". "Mais facilmente do que pela imprensa, pela Rádio é de se tentar a consciencialização do indivíduo, na luta contra o analfabetismo, na educação técnica da grande massa, na necessidade de informação cultural, na assistência científica aos trabalhadores, etc.". Pedia demais o poeta? Para outro poeta, Jorge Barbosa, a rádio banalizara-se por volta de 1952. Ou terá sido simplesmente enfado o que o levou a escrever a crónica "Nada aqui acontece (no mesmo "Boletim", em Novembro desse ano): "Tudo vem atrasado, as modas, a música, os livros, as cartas dos amigos. Apesar da rádio encurtar as distâncias, pouco ouvimos as suas novidades. Já lá vai o tempo em que às horas certas dos noticiários e fados da Emissora Nacional, dos comentários da BBC. Dos sambas desses muitos PR [posto radiofónico] que há pelo Brasil, a burguesia das nossas cidades e das nossas vilas se concentrava, ávida de sensações, à roda dos aparelhos. E a gente do povo, curiosa, ficava na rua, defronte das janelas, ouvindo também e comentando com a sua filosofia e a sua ironia os ecos de terra longe. Agora já não. Já não há aquela pressa nem aquele interesse em escutar a telefonia que permanece fechada a maior parte do tempo. É que ela se banalizou demais. Pois aqui nada acontece. Estamos no fim do mundo, de olhos virados para um futuro que teima em não chegar." Sem criticar nenhuma das emissoras cabo-verdianas em particular, o trecho vale pelo que revela do interesse despertado pela rádio nos seus primórdios. Na mesma página, Jorge Barbosa desfaz um mal-entendido com pinceladas de bairrismo que quase chega a opor o poeta a Orlando Levy, na altura locutor da RCCV. Barbosa escrevera num número anterior sobre a intenção de se criar uma nova rádio em S. Vicente - devia se referir à Rádio Barlavento, que se torna realidade em 1955. "Através desta, então, com as nossas mornas e as nossas poesias, o arquipélago enviará a sua melhor e a sua mais simples mensagem a outras terras e a outros povos". À reação de Levy, Jorge Barbosa frisa que seria a melhor mensagem não por ser enviada de S. Vicente, mas por ser "o melhor que nós temos a dar de todos nós - a nossa poesia e a nossa música". Ouvintes exigentes foram coisa que não faltou às rádios cabo-verdianas. Em Agosto de 1953, um leitor do "Boletim" que assina com as iniciais V.J. critica o excesso de música, "que fulaninho dedica a fulaninha com muitas saudades...", e a falta de programas de interesse mais geral, bem como "a exiguidade das `Notícias do Arquipélago'. "Então não acontece mais nada nesta nossa terra senão... o movimento marítimo? Não nascem gémeos nem morrem um desses velhos que mereça a pena dar a notícia? Não há sequer uma cena de pancadaria ou um choque de automóveis?", questiona o leitor e ouvinte. Pelas páginas do jornal "Arquipélago", anos mais tarde, vamos encontrar, em Fevereiro de 1966, um texto de Marlima - "Música Cabo-Verdiana" - sobre um concurso musical promovido pela Radio Clube Cabo Verde e as gravações que são transmitidas na programação. "Atira-nos de vez em quando para o ar com uma música de gaita e ferrinhos detestável, ou mornas e coladeiras sem morabeza e moral pouco judiciosa..." A radiodifusão nunca deixou indiferentes os cabo-verdianos. Ainda que nos primeiros tempos poucos tivessem o privilégio de possuir um receptor, isso não impedia os menos abastados de acompanhar as transmissões, já que grupos de pessoas reuniam-se onde houvesse um rádio a funcionar, como vimos no trecho de Jorge Barbosa. É interessante notar, quanto à sua importância, que já pelos finais dos anos 50, o jornal "Notícias de Cabo Verde" trazia em todas as edições uma coluna intitulada "Rádio-Reporter", com notícias e comentários sobre os programas e a performance dos locutores das emissoras então existentes. A partir dos anos 60, refere João Nobre de Oliveira em "A Imprensa Cabo-Verdiana", muito mais gente poderá possuir um aparelho de rádio. O historiador atribui aos emigrantes um papel importante nesta mudança. "Esse fenómeno provocou uma revolução na comunicação social em Cabo Verde. Pelo menos na área da rádio a comunicação deixou de ser elaborada tendo em vista apenas uma elite interessada, era toda a população que passava a ser o destinatário da mensagem radiodifundida", escreve Oliveira, lembrando ainda o acesso que se tinha a rádios estrangeiras, facto que o PAIGC não deixou de aproveitar durante a luta pela independência, com a sua Rádio Libertação, emitida a partir de Conacri. Por sua vez, a rádio fora importante também para a administração colonial. No seu artigo ("História das transmissões radiofónicas na cidade da Praia e recinto de lazer", "Novo Jornal Cabo Verde", Maio de 1995), o médico Santa Rita Vieira, homem atento à realidade do seu tempo, dá como exemplo o facto de que a RCCV, nos seus primeiros tempos, "facilitou a actividade do Governador assoberbado com os problemas resultantes da última crise provocada pela seca. Passou a ter possibilidade de transmitir rapidamente aos administradores dos vários concelhos as instruções para aplicação das verbas para melhor acudir aos necessitados". A RCCV, considerada corporação de utilidade pública após cinco anos de actividades ("Boletim", Junho de 1950), foi mesmo apoiada financeiramente pelo Governo, com verba saída do Orçamento Geral da Metrópole, como dá conta o "Boletim" de Julho de 1954. Vinte anos mais tarde, no período de transição para a independência, os militantes do PAIGC tomam o poder na Rádio Barlavento, em S. Vicente. Tirar a emissora das mãos de quem alinhava com o poder colonial constituiu na altura, para além das suas implicações concretas na mobilização da população, um acto politicamente simbólico, e também revelador da importância deste veículo.
Por Glaúcia Nogueira

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