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segunda-feira, abril 10, 2006

RADIODIFUSÃO EM CABO VERDE - IV


Rádio em Cabo Verde (IV) - A Rádio Clube do Mindelo



domingo, 09 janeiro 2005
A 21.06.1947, o jornal mindelense "Notícias de Cabo Verde" informa, na sua primeira página, a inauguração das emissões da Rádio Clube do Mindelo (RCM). São, nesses primeiros tempos, às terças, quintas, sábados e domingos, das 18h às 19h30.
Sobre esta emissora que marcou época em S. Vicente, atraindo entusiastas entre a intelectualidade da época, como Gabriel e Dante Mariano, mais tarde Onésimo Silveira, entre tantos outros que ainda hoje se recordam desses tempos, há, curiosamente, muito pouca informação registada nas páginas da imprensa cabo-verdiana.
O "Boletim de Propaganda e Informação", traz publicidade da RCM em algumas poucas edições - ao contrário da RCCV, da Praia, que durante muito tempo teve a sua programação publicada mensalmente nesta revista, para além de, praticamente desde o início, ter recebido apoio financeiro oficial. Em todo o caso, pelos anúncios da RCM ficamos a saber, em Setembro de 1955, que as emissões a partir desta altura são às segundas, quartas e sextas, das 20h às 22h.
Já em Novembro de 1957, a emissora - que se proclama "Voz de S. Vicente ao serviço de Cabo Verde" (Boletim nº 98) - informa num dos seus anúncios que emite diariamente, na banda dos 62 metros, frequência de 4.755 kc/s das 18h30 às 20h.
A página publicitária traz só os destaques da programação (com início às 19h ou às 19h30), mas pode-se concluir que privilegia o desporto, com um programa de actualidades desportivas às segundas-feiras e o relato dos jogos aos domingos; às terças há "Música e Palavras - programa de divulgação musical"; às quartas, o "Panorama" caracteriza-se como "crítica construtiva de um cabo-verdiano para os cabo-verdianos"; às quintas há uma "Sinfonia Publicitária"; às sextas, a rubrica "Rádio-cinema" propõe actualidades e crítica cinematográfica; e aos sábados há o "Jornal Sonoro", revista de actualidades. Infelizmente, não aparecem os nomes das pessoas que produzem e apresentam estas emissões.
"E ainda os mais diversos programas da Emissora Nacional que nos são fornecidos ao abrigo do plano de intercâmbio daquela estação", lê-se nesta página, que informa ainda que brevemente a rádio irá iniciar um serviço semanal de emissões em inglês e italiano, em colaboração com a BBC e a Radiotelevisão Italiana.
Quanto à música, o anúncio publicita "música variada e de dança, folclórica, ligeira, sinfónica, de salão, etc., na sempre renovada discoteca do Rádio Clube do Mindelo".Ainda nos anos 50 situam-se as recordações que a cantora Titina nos relatou numa entrevista em 2002: "Fiz um programa com o Frank Cavaquinho, era às quintas-feiras na Rádio Clube do Mindelo. O Frank estava sempre a compor, praticamente todas as semanas tínhamos músicas novas. Ele ia lá à minha casa, ensaiávamos e à quinta-feira íamos para a rádio, não era gravado, começávamos a cantar, aquilo era em directo. Evandro de Matos, que dirigia a rádio, era o apresentador. Ele ensinou-me muito."
Quem também marcou época na rádio nessa altura foi Sérgio Frusoni, com as suas crónicas apresentadas sob a rubrica "Mosaico Mindelense", mas que apesar de algumas tentativas não conseguimos apurar se era na RCM ou na rádio Barlavento.
Em 1964, a rádio instala um novo emissor mais potente, informa o "Arquipélago", em Abril, e três meses mais tarde é anunciado no mesmo periódico a realização de um concurso de mornas e conjuntos musicais. Em Setembro do ano seguinte, informa-se que a RCM comemorou os seus 20 anos de existência com um espectáculo teatral no Éden Park.
A emissora terá sido criada oficialmente em 1946 - "O Arquipélago" assinala em Setembro de 1968 os seus 22 anos e, em Setembro de 1971, os 25 - mas só terá iniciado as transmissões em Junho do ano seguinte, pelo que diz o "Notícias" atrás referenciado. Nas suas "bodas de prata", abre um terceiro período diário de emissão (até então era à tarde e à noite), criando o programa "Paralelo 12" (das 12h às 13h).
Às actividades radiofónicas associavam-se, a exemplo do que acontecia com a RCCV e com Rádio Barlavento (esta nascida no interior de um clube social), iniciativas de carácter recreativo e cultural. O cronista Nena (Manuel Nascimento Ramos), autor de "Mindelo de Outrora" e que tinha a sua farmácia no mesmo edifício onde funcionava a RCM, no alto da rua de Lisboa, recorda-se de bailes, récitas e espectáculos teatrais na sede da emissora.
Sabemos por "O Arquipélago" (07.12.1972), que o conjunto Kings actuaria nesse espaço no reveillon desse ano, enquanto Os Alegres animariam a festa do Grémio.
A "carolice e boa vontade", segundo Nena, eram os motores do funcionamento da RCM, que em algumas ocasiões terá sofrido com a censura, em particular, segundo ele, nos últimos tempos antes da independência, o que desencorajou alguns dos seus jovens voluntários que, mais tarde, contudo, pela experiência aí adquirida, viriam a se tornar profissionais na Rádio Nacional, que resulta da estatização de todas essas iniciativas privadas que originaram a radiodifusão no arquipélago.
Por Glaúcia Nogueira

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