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segunda-feira, abril 10, 2006

RADIODIFUSÃO EM CABO VERDE - V



Rádio em Cabo Verde (V) - Rádio Barlavento



segunda-feira, 17 janeiro 2005
A direcção do Grémio Recreativo do Mindelo, na altura presidida pelo médico José Duarte Fonseca, reuniu na sua sede, no dia 21 Agosto de 1954, várias personalidades para apresentar a aparelhagem que acabara de receber para os seus serviços de radiodifusão. O Governo na Província apoiou financeiramente a aquisição do equipamento, considerando o Grémio um organismo de utilidade pública, informa a revista "Cabo Verde - Boletim de Propaganda e Informação", que publica essa notícia no seu n.º 60, sob o título "Radiodifusão em S. Vicente".
Em Junho do ano seguinte, o nº 69 da mesma publicação informa que as emissões tiveram início e, um mês depois, que a Rádio Barlavento foi inaugurada oficialmente, com um emissor de 1 Kw, emitindo diariamente na banda dos 50,2 metros, das 18h30 às 19h30.
Começa assim a história de quase duas décadas de vida da Rádio Barlavento, a última a ser criada entre as emissoras pioneiras em Cabo Verde, todas de iniciativa de particular, e a primeira a ser "nacionalizada" pelo PAIGC, ainda durante o período de negociações para a independência - precisamente dez dias antes do acordo firmado a 19 de Dezembro de 1974.
Ainda nos seus primeiros anos, dos seus estúdios no edifício onde hoje se encontra o Centro Nacional de Artesanato, na Praça Nova, saíram emissões e gravações que são marcos na produção cultural de Cabo Verde.
As primeiras gravações realizadas no arquipélago e que vieram a ser editadas em disco foram aí realizadas. Mité Costa, a cantar mornas de Jotamonte e acompanhada por um grupo dirigido por ele próprio, foi a primeira da série de 45 rpm "Mornas de Cabo Verde", editada pela Casa do Leão. Seguiram-se Amândio Cabral - no disco com a primeira gravação da hoje célebre "Sodade" - Titina, Djosinha e outros.
Foi também a partir dos estúdios da Rádio Barlavento que Sérgio Frusoni e Nho Djunga divertiram os mindelenses com o humor acutilante das suas crónicas que, à hora certa, atraíam muita gente para ouvi-las pelos altifalantes colocados no exterior do prédio.
Bem antes disso, foi também nesta emissora, quando completava um ano de existência, em Julho de 1956, que Baltasar Lopes da Silva leu, em duas sessões, a sua palestra indignada sobre o que o sociólogo Gilberto Freire escrevera sobre Cabo Verde. E também um texto emocionado sobre a importância da obra de B.Léza, no dia da sua morte, em 1958.
Ao longo dos anos 60, praticamente nada encontramos nas páginas d'"O Arquipélago" - único órgão de informação generalista em Cabo Verde na altura - sobre a Rádio Barlavento. Só em 1977, quando se comemora o terceiro aniversário da sua guinada de rádio da classe abastada e conservadora para instrumento do PAIGC, é que, pelas páginas do "Voz di Povo", ela volta a ser notícia, pelo que a nossa pesquisa conseguiu apurar.
No período turbulento em que se desenrolavam as negociações entre o PAIGC e o governo português, a rádio - nascida no interior do clube que reunia a elite de S. Vicente - assumira uma posição contrária à luta pela independência. "Pessoas afectas aos intentos neocoloniais spinolistas se serviam desse meio de comunicação de massas para os seus fins manipuladores", escreve o "Voz di Povo" a 10 de Dezembro de 1977.
Assim, a 9 de Dezembro de 1974, as suas instalações são ocupadas por um grupo que havia dois meses vinha preparando esse momento - como relata num depoimento publicado em Dezembro de 1985, no "Tribuna", o jornalista Júlio Vera-Cruz, que tinha na altura 16 anos - e funda-se então a Rádio Voz de S. Vicente.
"A transformação da Rádio Barlavento em Rádio Voz de S. Vicente foi um acontecimento de peso no processo de descolonização em Cabo Verde, não só por pôr termo à campanha de intoxicação então levada a cabo por certa camada da pequena burguesia reaccionária, mas também por dotar o povo de Cabo Verde e o Partido de um instrumento eficaz no esclarecimento, mobilização e organização populares com vista à independência", lê-se no "Voz di Povo", que noticia que, ao longo de mais de duas semanas, haveria actividades a assinalar o terceiro aniversário da tomada da rádio.
A comemoração dos dez anos foi ainda maior, com uma emissão contínua de 36 horas preparada especialmente para a ocasião, em que actuaram Travadinha, Luís Morais e muitos outros artistas. Numa cerimónia realizada na Escola Preparatória Jorge Barbosa, José Araújo (na altura presidente da Comissão Nacional de Informação) discursou a recordar o papel que a rádio passou a ter como instrumento de mobilização, na altura.
Corsino Fortes, então secretário de Estado da Comunicação Social, anunciou, para dali a alguns meses, o lançamento da Rádio Nacional de Cabo Verde (RNCV), que viria por sua vez a determinar o fim da Rádio Voz de S. Vicente, ao absorvê-la, como fizera com a Rádio Clube de Cabo Verde, da Praia. Durará seis anos o regime de "rádio única": em 1992 regressam as iniciativas privadas que, de lá para, cá não pararam de se multiplicar.
Gláucia Nogueira

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