elisangelo.ramos@gmail.com

sexta-feira, junho 09, 2006

Música de Cabo Verde









21-11-05

Nas rádios, revistas e televisões, nos sítios da internet, piano-bares, jornais e palcos dos quatro cantos do mundo, toca-se, canta-se e fala-se cada vez mais de Cabo Verde.
Qualidade, originalidade e diversidadeMarketing: a força da promoçãoO poder da emigraçãoOnde pára o lobby?Formação precisa-se
Francisca Silva entrou no táxi esmagada pelo cansaço da longa viagem de avião que fizera da ilha do Sal até uma metrópole africana, procurando relaxar no banco de trás. Mas o burburinho circundante e a música, que inundava o veículo, não davam hipótese. Decidida, esta cabo-verdiana preparava-se para pedir ao taxista que diminuísse o volume quando, para surpresa sua, começou a soar os acordes de uma música por demais conhecida. “Sodade”, na voz de Cesária Évora. O nome da protagonista desta cena é fictício, mas o episódio, além de real, assinala apenas um dos muitos palcos onde a música cabo-verdiana se tornou a grande sensação do momento. E não são poucos.
São os programas televisivos e radiofónicos como Kandando, Rijnmond NL, Na Roça com os Tachos, Angola Look, Músicas d’África, Moamba, CP - Estação dos Novos, Linha Africana, Música sem Espinhas... São dezenas de sítios na Internet: o amazon, africultures, le monde, Fnac ou Radio France. São os grandes festivais de "world music", como Womad, Nuits d’Afrique e Angoulême. E “pâ tudo cantu que êl bai” são concertos que seduzem o Japão, encantam a Austrália, despertam o globo para um mundo de dez ilhas perdidas no meio do mar. Não importa qual o género, se morna, coladeira, batuco, funaná, música erudita, pop/rock, r&b ou o cabo-zouk, pois todos eles já carregam uma marca: música de Cabo Verde.
Os músicos cabo-verdianos também não fazem para menos. Sabendo o peso da responsabilidade que carregam nas costas, esforçam-se, lutam contra ventos e marés, insistem, persistem. E é assim que cada vez conquistam mais público, alcançam novos horizontes, vão às raízes, pesquisam e apresentam todos os dias novos sons, novos ritmos. E por isso são elogiados pela crítica especializada, são finalistas ou vencedores de importantes prémios.
A lista dos vencedores, nomeados e renomeados já vai longa. Inclui Tcheka Andrade (vencedor do Prémio Musique RFI 2005). Ferro Gaita (nomeado para Melhor Grupo Tradicional nos Kora Awards 2002). Cesária Évora (que já venceu um Grammy de melhor álbum de world music contemporâneo, em 2004, com o álbum “Voz d’Amor”, foi nomeada para Melhor Artista da África Ocidental nos Kora Awards de 2003 e é este ano candidata a Artista da Década de África). Lura (nomeada para as categorias de Melhor Artista Africano e Melhor Revelação do Prémio BBC 3, edição 2006), Suzanna Lubrano (que é a melhor Artista de África, no Kora Awards 2003, com o disco “Tudo pa bo”), Tó "TC" Cruz (pré-candidato ao Grammy de Melhor Performance Vocal Masculina 2004 com “Truth and Commitment”), Dulce Matias e Johnny Ramos, finalistas nas categoria de Melhor Artista Feminino e Masculino da África Ocidental, edições 2004 e 2005, respectivamente.
Mas a preferência vai além da mera apreciação e ganha lugar nos discos e repertórios de concertos de artistas estrangeiros que ora se arriscam a cantar em crioulo, ora apostam em recriações de temas cabo-verdianos. Quem poderia prever há anos atrás que um dia, no piano-bar de um dos mais importantes hotéis de África, ouvir-se-ia música cabo-verdiana na voz de uma cantora russa que se fazia acompanhar por uma banda da Costa do Marfim? Que os DJs Joe Claussel e François Kerkovian criariam remixes dos êxitos de Cesária Évora? Que bandas de jazz fariam novas versões de temas que são hinos da música cabo-verdiana? Que estrelas do cenário musical internacional desdobrar-se-iam em convites aos músicos destas ilhas para participarem em seus discos?
Ou ainda que um dos temas da trilha sonora de um filme de Almodovar saísse do violino de Bau? Que os ritmos modernos de Gil Semedo entrariam para o filme de Fernando Fragata, “Sorte Nula”, a película portuguesa mais vista em 2004? E que um disco inteirinho de Vasco Martins (“Lunário Perpétuo”) serviria de trilha sonora de um documentário de Garegin Chookaszian intitulado “A História do Genocídio do Povo Arménio”? Que Ferro Gaita levaria os sons do funaná ao festival de Heineken Kalalu World Music, na ilha caribenha de Santa Lucia? Alguém poderia responder “nunca”. Porém, olhando para as características e analisando o percurso da música de Cabo Verde, pode-se afirmar que o estatuto internacional que agora está a conquistar vem sendo forjado há décadas.

Qualidade, originalidade e diversidade

Augusto “Gugas” Veiga, manager dos Ferro-Gaita e proprietário da AV Produções e Kapital Estúdios, não tem dúvidas em afirmar que a primeira razão desse crescente sucesso é a qualidade da música e dos músicos de Cabo Verde. “Os festivais de world music têm dado oportunidade aos artistas e grupos cabo-verdianos de fazerem sucesso porque apresentam um produto de qualidade. Caso contrário, não receberiam convites para tantos eventos importantes”, diz.
Essa qualidade, na opinião do sociólogo César Monteiro, autor do livro “Manuel d’Novas: Música, vida, cabo-verdianidade”, é fruto da “sabedoria” com que os artistas têm articulado os aspectos tradicionais com a modernidade. “A música cabo-verdiana já não é a mesma dos nossos avôs, sobretudo em termos de sonoridade, mas continua agarrada à beleza da poesia que sempre a caracterizou. Isso ajuda na sua aceitação pelos públicos do mundo”.
Para Nuno Sardinha, jornalista da RDP-África, não é este o único condimento que atrai a atenção do mundo para a música cabo-verdiana. Para o apresentador de Músicas sem Espinhas, há outro elemento, “que se prende com factores de métrica musical”. “Os géneros mais divulgados da música de Cabo Verde, sejam eles de âmbito tradicional como as mornas, coladeiras, batuco ou funaná, sejam de âmbito urbano como as chamadas correntes do zouk cantado em crioulo, são por definição ritmos mais abertos à assimilação por parte de outros povos”.
Isto é, as pessoas identificam-se com eles, como explica Maria de Barros, a grande sensação da música crioula nos EUA, eleita personalidade world music 2004 pela revista Essence: “Muitas pessoas, de várias partes do mundo, dizem-me que a minha música é parecida com a deles. É isso que faz a nossa música especial, as pessoas sentem-se imediatamente ligadas a ela”.
Mas Cabo Verde não é o único país que, mesmo não sendo uma potência, tem músicos de grande qualidade. “O mundo está sequioso de novos ritmos, que sejam originais e autênticos e nós cabo-verdianos temos tudo isso”, explica Augusto Veiga, antes de rematar que “o mercado está farto de certos estilos”. Este é, por isso, diz César Monteiro, o momento certo para Cabo Verde divulgar a sua música: “Ainda estamos no início do processo de divulgação da nossa música. Cabo Verde tem ainda para mostrar uma grande diversidade de estilos”, desafia o sociólogo.
Explicando este aspecto aos internautas do site Albuquerque Tribune, dos EUA, o articulista Michael Halstead afirma: “Porque as ilhas de Cabo Verde são separadas por vastas distâncias, cada uma desenvolveu a sua identidade e cultura própria. Como resultado, Cabo Verde oferece um tesouro de rica diversidade musical”. É dessa diversidade que o mundo está à procura, segundo Nuno Sardinha: “O futuro aposta naquilo que de mais típico e diferente os países têm, o que não quer dizer que todos os artistas tenham de ser fiéis à tradição”.
Assim, depois de Cesária Évora conquistar o mundo com as suas mornas e coladeiras, Mayra Andrade, Tcheka, Lura e Ferro Gaita cativam com os seus batucos e funaná estilizados. Com eles, diz Djô da Silva, patrão da editora Lusáfrica, “estamos a conquistar um público diferente, mais jovem”. Porque agora, considera Djudju Tavares, autor de um livro sobre Katchás em preparação, “não importa o estilo, as pessoas estão abertas a outros ritmos Cabo-verdianos, até mais ricos do que a coladeira e a morna”.
Esses “novos” géneros trazem algo mais, anunciam “a nova fé, na vida ki nô ta vivê na nôs terrinha”. Aliás, Michael Halstead explica essa nova forma de ser do povo das ilhas quando diz: “Se as canções de Cesária Évora são essencialmente de lamento e espera, as músicas poli-rítmicas de Lura, mais africanas, reflectem o lado alegre de Cabo Verde”. É que, a intérprete de Na ri na, encarna esta nova faceta do cabo-verdiano, quando diz: “As pessoas de Cabo Verde não têm medo de mostrar as suas emoções e expressam-nas no seu modo de dançar, cantar e tocar”. Opinião corroborada por Maria de Barros: “As pessoas de Cabo Verde são alegres e temos que mostrar isso através da nossa música e dança. Porque, se é certo que gostamos de mornas, certamente também adoramos coladeiras e funanás”.
E agora, depois de Cesária Évora, Ildo Lobo, Bana, outros géneros tomam conta do “terreiro”. Djô da Silva lembra que “até aqui a morna e a coladeira foram os estilos mais tocados por artistas de Cabo Verde, o que consequentemente levou a que fossem mais conhecidos e conectados com o país. O batuco e o funaná começam a percorrer o caminho da divulgação necessária graças a artistas como Lura, Tcheka e Ferro- Gaita”. Porque acrescentam às raízes a “pimenta necessária” para tornar o som dessa mistura simultaneamente única e universal. O curioso, segundo Silva, é haver no caso de Tcheka “um público atento e simultaneamente apreciador de géneros musicais como o rock e o jazz, facto que nunca antes havia sido conseguido por nenhum artista de Cabo Verde”.
Nuno Sardinha, por sua vez, também fala de um fenómeno estranho que acontece em Portugal quando há música de Cabo Verde. “Em espectáculos de novos valores, de ritmos urbanos, o público é principalmente cabo-verdiano. No caso de espectáculos de música tradicional o público é composto por cidadãos portugueses”. Contudo, prossegue, “cada vez mais se assiste a uma valorização dos ritmos tradicionais. É curioso ver a juventude a ouvir cada vez mais funaná ou batuco, mas sobretudo a interpretar suas composições”.

Haut de page

Marketing: a força da promoção

Cesária Évora, Ildo Lobo, Tcheka, Lura, Ferro-Gaita, Suzanna Lubrano, Maria de Barros, Vasco Martins, Bau e Gil Semedo, só para citar alguns, não são os únicos artistas talentosos de Cabo Verde. Então, por que são eles que estão “na crista da onda”? A palavra mágica parece ser marketing. Augusto Veiga é peremptório ao afirmar que este “é o aspecto mais importante” e exemplifica com o caso Cesária Évora: “Se Cize não tivesse uma poderosa máquina de marketing por trás, talvez o seu talento não fosse suficiente para conquistar tanto sucesso internacional”. Aliás, é sabido quantos longos anos, cerca de 30, a “diva dos pés descalços” cantou sem receber o devido reconhecimento.
O guitarrista Voginha, que gravou o CD “Mar Azul” com Cesária, explica que “antes do disco chegar ao circuito comercial, é preciso promovê-lo na comunicação social a fim de que as pessoas apanhem o gosto”. Para conseguir isso, continua Voginha, “é preciso ter uma boa equipa que, por sua vez, só se arranja com muito dinheiro”. E, mais uma vez, Cize serve de exemplo: “Quando assinou pela Lusáfrica, que está sediada na Europa, Cesária Évora passou a ter uma grande multinacional a apoiá-la, a BMG, que tem ramificações em todo o mundo. Não é à toa que ela tem uma agenda cheia de espectáculos até ao próximo ano”.
Do outro lado do mundo, mais propriamente nos EUA, está a Mendes Brothers Management, dos irmãos João e Ramiro Mendes, que representam artistas como Gil Semedo, Ferro-Gaita, Tó Cruz, Zé Rui de Pina e Suzanna Lubrano. No caso desta cantora foi notória a agressiva promoção que a MB Management fez junto dos media sul-africanos e da região austral nas vésperas dos Kora Awards, em 2003, e que culminou com a atribuição do prémio de Melhor Artista de África a esta badia da Ribeira da Barca.
Este ano, o trabalho dos manos Mendes abriu as portas de inúmeros festivais de world music ao Ferro-Gaita que, aproveitando a oportunidade, fez grandes actuações e garantiu participações em festivais até 2006, nomeadamente no famoso Sounds of Brazil, em Nova York, já no dia 9 de Dezembro e, em Fevereiro de 2006, no American Folk Festival, no Texas. Mayra Andrade, por sua vez, mesmo sem gravar ainda qualquer disco, também tem uma agenda de espectáculos cheia até 2006, não só porque é reconhecidamente talentosa mas também porque tem um empresário - Jacques Chopin - e uma grande multinacional a suportá-la, neste caso, a Sony BMG, com quem assinou um contrato de gravação de cinco discos.
Contudo, há mercados que ainda não franquearam as portas aos ritmos destas ilhas. Os EUA são, ao que tudo indica, o osso mais duro de roer. “Ali, a promoção do disco e da imagem do artista é lei, e nem mesmo os americanos conseguem triunfar se não forem agressivos nessa campanha”, alega Djudju Tavares. Para João Mendes, o problema não está no mercado americano. “Não é difícil penetrar nesse mercado. Os artistas cabo-verdianos têm sido bem sucedidos, conquistando o coração e a alma da América. Temos é que melhorar o nosso trabalho, promovendo mais a nossa música e cultura na América”.
Ou seja, afirma João Mendes, “se a nossa música não estivesse bem enraizada e não fosse forte, não teria sobrevivido entre as outras músicas, que são muito mais promovidas”. Porém, para que o “salto” definitivo aconteça, “os artistas, produtores e compositores, aliás, toda a comunidade musical cabo-verdiana precisa ser educada nos ‘negócios da música’. Precisam aprender os fundamentos da indústria musical, incluindo os aspectos relativos a direitos autorais, contratos, distribuição, promoção, etc. O talento artístico dos cabo-verdianos é fenomenal, mas o seu lado industrial apresenta ainda grandes lacunas de conhecimento”.

Haut de page

O poder da emigração

Além do marketing, os artistas cabo-verdianos contam com os seus compatriotas radicados nos quatro cantos do mundo “aqui pâ ondé qu’es bai ta cantá ses música ku veneraçon, tá cantal na partida, ta cantal na regresso. É companheru di ses vida”. Augusto Veiga conta que “quando o Ferro-Gaita actuou no Verão, em Toronto, estavam cerca de 60 cabo-verdianos entre a assistência. Logo que iniciámos o espectáculo começaram a dançar e o resto do público imitou-os. No final do concerto, vendemos cerca de 100 CDs no espaço de uma hora”.
Por outro lado, quando está de férias no torrão natal o emigrante compra discos dos seus artistas preferidos e leva-os consigo para o país de acolhimento. Muitos vão parar às rádios, como acontece na Noruega, onde um radialista, casado com uma cabo-verdiana, faz um programa totalmente dedicado à música deste arquipélago e está a trabalhar no sentido de levar grupos crioulos para actuar naquele país da Escandinávia.
E assim a música cabo-verdiana chegou também à Suécia, onde assentou arraiais não só junto dos crioulos como dos suecos de todas as idades que ou se sentem ligados a Cabo Verde ou provaram uma vez a música de Cabo Verde e nunca mais a largaram, transformando-se muitos deles em exímios dançarinos do funaná. Mas Cabo Verde e a sua música também estão na Áustria, levados pelos Simentera e outros, na Finlândia, Itália, Holanda, etc., etc.
Se na maioria dos casos o emigrante é mero espectador, noutros é ele o artista. Fernando Queijas, recentemente falecido, Titina Rodrigues, Voz de Cabo Verde, Splash, Livity, Celina Pereira, Tito Paris, Bana, Suzanna Lubrano, Kino Cabral, Gil Semedo, Cabo Verde Show, Norberto Tavares, Boy Gé Mendes, Mariana Ramos, Amândio Cabral, Maria de Barros, Nancy Vieira, Teófilo Chantre, Dudu Araújo, Nando Cruz, Gilyto, entre tantos outros músicos emigrantes, continuam a fazer e a cantar música destas ilhas, levar a cultura do país que os viu nascer “pa tudo banda qu’es bai”.
“Se vivêssemos isolados e não tivéssemos uma diáspora integrada e activa não teríamos conseguido chegar aonde estamos”, garante César Monteiro, frisando que neste processo a música cabo-verdiana sai a ganhar em dois aspectos: “Por um lado, os artistas emigrantes vêm a Cabo Verde “beber” na fonte da tradição e, por outro, enriquecem a nossa música com os ritmos dos países onde residem. O resultado é uma música mais rica, diversa, transcultural, mas que nunca perde a sua originalidade”.
E é também entre os emigrantes que estão alguns dos maiores produtores da música cabo-verdiana. “Se não fosse o Djô da Silva, radicado na França, Cesária Évora não teria hoje o sucesso que tem”, diz César Monteiro. “É preciso que apareçam, que apostem na abertura de estúdios não só no estrangeiro como em Cabo Verde”, declara por sua vez Voginha. E há que recordar o importante papel da Morabeza Records nos anos 60 do século XX, na Holanda, e mais recentemente da Boa Música, cujo dono é um emigrante Júlio do Rosário. E da Giva Music, dos irmãos Vado e Gil Semedo, também eles emigrantes na terra das tulipas.

Haut de page

Onde pára o lobby?

No entanto, nem sempre o lobby crioulo, que é nada mais, nada menos do que conhecer as pessoas certas do mundo do showbiz, funciona. É o caso dos EUA. “Se a comunidade cabo-verdiana investir mais na cultura de Cabo Verde, nós conquistaremos mais facilmente os EUA, a exemplo do que aconteceu com a música latina”, diz Djô da Silva. Para o patrão da Lusáfrica, não se justifica que nos EUA, onde existe a maior diáspora cabo-verdiana, “as vendas de discos representem menos de 10 por cento das vendas de música cabo-verdiana no mundo”.
Mas esse estado de coisas está a mudar. Cesária Évora conseguiu finalmente ganhar um grammy, depois de seis nomeações. E Lura, que efectuou recentemente uma digressão que a levou aos EUA, Holanda, Bélgica, Luxemburgo, Alemanha e Reino Unido conseguiu um feedback muito positivo do público e da crítica. E os artistas que não estão ligados à Lusáfrica? “Os norte-americanos têm uma cultura virada para si próprios e dificilmente deixam penetrar a música de outros países. Nós, do Ferro-Gaita, estamos a fazer lobby através da MB Management, Lura, Tcheka e Cesária fazem-no via Lusáfrica, mas há outros artistas que, apesar de serem bastante talentosos, continuam fora desse mercado”.
João Mendes considera que “o lobby sempre ajuda”, contudo, defende, “esse não é o principal ingrediente”. “O que a comunidade musical cabo-verdiana precisa compreender é que a música é uma indústria. Logo, tem que investir em si própria, a começar pelos artistas e produtores musicais. Tem de pensar na promoção de concertos, nos agentes, nas editoras, na gestão, publicidade, lojas de discos, engenheiros de som, estúdios de gravação, etc. Todos estes sectores precisam ser profissionalizados. Só assim conseguiremos criar, distribuir, promover e comercializar a nossa música a nível mundial”, declara Mendes.

Haut de page

Formação precisa-se

A formação tem sido por isso uma das principais reivindicações da comunidade musical. “Quando se fala da música de Cabo Verde elogia-se muitas vezes o facto de ter músicos intuitivos, autodidactas. Mas, no actual mundo da música, onde a competição é cada vez mais feroz, só o talento não chega, é preciso investir na formação”, alega Voginha que, em São Vicente, lá vai dando o seu contributo com uma pequena escola de música.
Segundo Tó Tavares, director da Escola de Música Pentagrama, na Praia, não é apenas o mundo do showbiz que exige formação académica dos músicos. “Os jovens reivindicam formação, pois já constataram que a música é arte, mas também é ciência e, como qualquer actividade científica, traz muitos benefícios, nomeadamente a possibilidade de conversar em linguagem musical com músicos de outros países, algo que não se tem conseguido até aqui”.
E, apesar da maioria das famílias e do Estado ainda não valorizarem a educação musical, há aqueles que arriscaram, como são os casos de Pedro Moreno, Vamar Martins, Lúcia Cardoso, Hernâni Almeida, Sérgio Figueira, Carlos Baessa, Gardénia Benrós, Maria, Vasco Martins, João e Ramiro Mendes, dentre outros, e conseguiram ultrapassar o preconceito, tornando-se em músicos com formação em conservatórios internacionais.
“O cabo-verdiano é um músico nato, como já me confessaram os professores estrangeiros que têm passado por Cabo Verde. Mas é o conhecimento que lhe permite evoluir e trazer lufadas de ar fresco ao nosso folclore e à nossa maneira de tocar”. E as possibilidades de inovar e estilizar géneros ainda confinados ao folclore serão maiores, na opinião de Tó Tavares, “quando for aberta a Universidade de Cabo Verde”. “Se a música é de facto o nosso maior produto de exportação, a sociedade e o Estado precisam mudar de mentalidade e apostar numa Academia de Música”, defende.
Maria de Barros está disposta a colocar todo o seu prestígio e carisma ao serviço dessa necessária mudança. “Sonho ir a Cabo Verde para fazer saber ao governo quão importante é ter música nas escolas. Porque a música é a nossa vida, o nosso ar, a nossa cultura e a nossa marca no mundo”, afiança a cantora de Dança ma mi.

0 Comments:

Enviar um comentário

Links to this post:

Criar uma hiperligação

<< Home